quarta-feira, 1 de novembro de 2017

QUE SERÁ FEITO DA BONECA PERDIDA?


Não me recordo do nome da senhora, apenas da sua enorme simpatia e generosidade. Vivia no primeiro andar da moradia pegada à nossa, era casada, sem filhos, creio que por impossibilidade biológica. Em contrapartida, tinha uma trupe de sobrinhos, uns sete (todos irmãos), seis dos quais emparelhados em casais de gêmeos - enfim, a velha máxima, tão velha quanto a humanidade, uns com tanto, outros com tão pouco. Lembro-me de os ver aparecer de visita, de vez em quando. Não viviam na mesma cidade.

A senhora amava crianças, só podia! Doutra forma, não estaria eu aqui a recordar este episódio da infância, tão resistente à inexorável passagem do tempo.

Deveria andar entre os cinco e os sete anos - mas, que sei eu, a esta distância! - e, lá em casa, a regra era não me deixarem ir a casa de ninguém. Que a mãe tenha autorizado a senhora a levar-me à dela é um mistério que, até hoje, permanece insondável, nesta minha cabeça. Mas aconteceu!

Recebeu-me muito bem, com o sorriso franco e entusiástico que, apesar do apagamento das feições, permanece vincado na minha memória. Introduziu-me às histórias infantis radiofónicas - seria a Branca de Neve, a Bela Adormecida? -, universo que apenas conhecia na versão escrita ou maravilhosamente narrada pelo pai, e que, por certo, me encantou. As duas, ela e eu, na varanda que dava para a rua, sentadas, a ouvir atentamente a transmissão, via rádio, da bela história contada! Com um prato de bolachas, que talvez me tenham sabido melhor do que as disponíveis em casa - sabe-se como são as crianças, tendem a valorizar as ofertas simples e genuínas (eu, como não há maneira de deixar de ser criança, continuo nessa onda).

Regressada a casa, em resposta a perguntas feitas - não era de relatos espontâneos -, aludi às bolachas. A mãe, que tinha as suas normas educativas, avisou-me de que tudo bem, mas, quando voltasse a casa da senhora, não deveria aceitar nada, para não incomodar. Certamente registei, certamente não devo ter percebido bem ou nem me dei ao trabalho de perceber ou não me atrevi a questionar, não sei, certamente e como era de regra, nem pensei em desobedecer.

Dias depois, voltei a casa da senhora. O programa foi igualmente simpático, mas as bolachas recusadas, com a educada frase, muito obrigada, mas não me apetece - assim, como a mãe ensinara. Ela não ligou muito, pois tinha uma oferta melhor, uma boneca, Isabelinha - imagino-a a chamar-me assim, apesar de não ser essa a forma por que familiarmente me nomeavam - anda ver a boneca que tenho ali para ti! Disse-o com a expectativa alegre das pessoas que amam oferecer e, sobretudo, surpreender a felicidade dos destinatários da oferta - como reconheço essas emoções! Recebeu a minha recusa com a decepção que uma tal recusa pode causar numa tal pessoa - felizmente, nunca a experimentei, mas não me custa imaginar. Lá estava eu, talvez envergonhada, seguramente triste, muito obrigada, mas não! Tive o bom senso de não acrescentar, não me apetece... Ela insistiu, mas nada me demoveu na recusa (talvez resultante duma interpretação demasiado literal dos comandos maternos, senão duma pontinha de parvoíce, seguramente duma manifesta falta, à altura, de espírito crítico e poder reivindicativo - pobre criança obediente!).

A senhora ficou deveras triste e, quando me devolveu, relatou o incidente à minha mãe. Assisti com iguais doses de estoicismo e de tristeza. A mãe deve ter dito à senhora que agradecia muito, mas não queria que se estivesse a incomodar - calculo, embora já não me lembre.

Nunca soube a história daquela minha boneca, teria pertencido à senhora, teria sido comprada de propósito para mim? Também nunca vim a saber o que terá sido feito daquela minha boneca, talvez tenha ido parar a uma das sobrinhas. Sei, apenas, que essa minha boneca, apesar de ser uma boneca perdida, faz parte da colecção de bonecas de carne e osso da minha infância, que conservo entre os meus bens mais preciosos - e, por opção, são cada vez menos!

(Dedicado à senhora que amava crianças, esteja onde estiver, e à memória da minha querida mãe, que queria que eu fosse uma menina educada)





Sem comentários:

Enviar um comentário