sábado, 1 de julho de 2017

TALVEZ ÍCARO, PELAS RUAS DA AMARGURA


foi largada nas ruas da amargura. não percebeu porquê. quer dizer, mais tarde, quando se interrogou, não obteve resposta.
desenhou um objectivo, o objectivo - isto, antes de se interrogar. voar até ao cu do mundo.
ganhou asas. elevou-se. chocou com um raio de sol. queimou a ponta das asas, desequilibrou-se, veio por aí abaixo. desvoou aos tram-
-bo
-lhões. 
aterrou no beco dos caídos. esparramou-se. completamente ao comprido. não sobrou osso inteiro, pele lisa ou mente cristalina.

desdesparramou-se. Quanta dificuldade! endireitou os ossos, restaurou a pele à custa de muito betadine (mais tarde, veio a saber que betadine já não estava a dar. o mercurocromo tinha sido a vítima precedente. hoje em dia apregoa-se o bepanthene. nessa altura, ignorava tudo isto). clareou a mente. muita teimosia, foi o que foi.

restaurou a ponta das asas. com penas, muitas penas. nada ficou igual, nem os ossos nem a pele nem a mente nem as asas. numas coisas tornaram-se mais fracos, noutras mais fortes. o objectivo permaneceu, alcançar o cu do mundo, em modo de voo.

meteu-se a caminho, elevou-se. desta vez à tardinha, na hora em que o sol começa a abrandar. foi por aí acima, à força de mexer os braços, aliás, as asas. a ponta das asas, agora remendada com penas, começou a voar por si. desprendeu-se do resto. veio por aí abaixo. desvoou aos tram-
-bo
-lhões. 
não aterrou no beco dos caídos. soube amparar-se nas nuvens reboludas. circuitou até uma superfície aquática. mergulhou fundo e voltou. espavorida, a respirar a custo. mas nada de ossos partidos, nem pele arranhada ou mente menos cristalina. bem, talvez um pouco de cada coisa, mas pouco. só uma grande zanga. já tinha passado a fase de perguntar porquê.

o objectivo permaneceu, na essência. alcançar o cu do mundo, não importava o modo. talvez em nome da zanga, talvez por teimosia. talvez pela razão inicial.

não restaurou a ponta das asas. as penas que se f*******. deixá-las voar, dispersar-se. abandonou as ruas da amargura, que se f*******, elas e os becos sem saída e os tram-
-bo
-lhões
trambolhões traumáticos. aliteração? sorriu.

o cu do mundo ainda lá estava, não ia mudar de sítio.
não havia pressa.

meteu-se a caminho, desta vez, a pé. com calma.

ainda vai a caminho, desfrutando a paisagem.
que se f*** o resto, incluídos os porquês, sobretudo os porquês.

obviamente, houve muitos outros voos. outros haverá, talvez. não cabem todos aqui.

  





Sem comentários:

Enviar um comentário