quarta-feira, 31 de agosto de 2016

SAUDADE DE TER SAUDADES


A partir de certa altura, estás sempre à espera, o sobressalto integra o teu dia-a-dia. Não que dele faças depender o curso da vida - ao menos na medida em que depende de ti... -, mas ele está lá, dissimulado de mil maneiras, roendo-te por dentro, estoirando a cada toque de telefone inesperado. Afinal, é a ordem natural das coisas, eles não são eternos! Eles, os que te precederam, te chamaram para este lado - sem consulta prévia, é certo, mas não pode deixar de ser assim! - e, no caso, te marcaram com o ferrão do sobressalto. Os Pais.

Simultaneamente, mesmo a partir de certa altura, não estás à espera, simplesmente porque recusas que possa acontecer, simplesmente porque não queres que aconteça, simplesmente porque não vislumbras como vais poder sobreviver (-lhes). A caixinha do pensamento mágico a abrir-se em toda a sua magnificência e (sabida) estultice. Quem sabe, um qualquer reduto, soterrado na tua maturidade precoce, se tenha recusado a crescer!

Cada vez que os abraças e beijas - não que, por essa altura, sejas muito dada a abraços e beijos - e constatas que estão bem, dás graças a entidades celestiais, cuja existência a razão te recusa aceitar.

Um dia, um maldito 26 de Julho, o telefone toca. Não, não vais entrar em pormenores, excepto os que o título reclama. Não se trata disso, nem o pudor to permitiria. Foi a Mãe. Morreu. Ias escrever, partiu, mas não, isso não passa de eufemismo cobarde, palavreado para enfeitar a realidade - e não és dada a enfeites, ao menos desse tipo.

Passas a escrever-lhe uma carta por noite, embrulhada em lágrimas contidas longos anos. O dia é outra coisa, é o tempo da normalidade, do trabalho, da resolução de problemas (e que problemas sobrevêm!), da resistência à quebra de afectos adquiridos (calha, circunstâncias da vida!), do apoio dos amigos (uma delas frequenta este blog, sabe do que falas e nunca te cansarás de lhe agradecer o apoio!). Enfim, é a vida, em toda a sua dimensão, do lógico ao absurdo. Também a força e o espírito guerreiro... Quer dizer, garante-se o equilíbrio no fio da navalha, caso para afirmar que a sobrevivência sobrevive!

O hábito das cartas nocturnas desvanece-se, a lembrança continua presente, em cada pormenor, o desgosto é enorme.

Desenrola-se um doloroso ano e meio e chega o outro telefonema,  não tão inesperado, outro dia maldito, um 30 de Janeiro. O Pai morreu (e não, não ias escrever partiu).

Renova-se a escrita das cartas nocturnas, embrulhadas em lágrimas, menos líquidas, que há pesos que até o choro turvam. As cartas acabam por cessar, a memória persiste. A recordação magoada reune o que a morte separou e, agora, voltou a unir. Sempre os conheceste juntos. Talvez seja um luto único. Magoa. Muito. Em qualquer pequeno pormenor está impressa a presença da ausência. Dos dois, feitos um. Um luto. Muita mágoa. Demasiada, vivida por dentro, sem deixar transparecer. Sobretudo sem deixar transparecer. Esconder o sofrimento, sempre. Por pudor. Porque não te interessa a solidariedade na miséria. Dispensas. Porque não aguentas a insensibilidade face à miséria. Ou, talvez pior, a agressão. Evitas. Porque já conheces da vida o suficiente para saberes que cada um tem  as suas dores.

O tempo passa. A vida impõe-se, em todo o seu despropósito, quer dizer, na soma de rotinas, incongruências, esperados e inesperados, nada de especial interesse. Impões-te à vida, quer dizer, aguentas e segues. E desfrutas do que podes. Eles, os mortos feitos um, Mãe e Pai feitos Pais,  continuam a acompanhar-te em mil recordações e vazios diários. Compreendes, na pele, o que é a vida para além da morte ou, por outras palavras, a eternidade das almas: a permanência na memória dos vivos, ainda que dum só vivo. Não passa disso.

A vida alegra-se com a (tão desejada) chegada duma nova geração à família. Pouco a pouco, voltas a sentir o Natal - que já deras por morto e enterrado - na plenitude do entusiasmo infantil. Dádiva inesperada e agradecida. Mas a memória, a recordação, persiste, insiste. Continuam e continuarão a viver enquanto assim for. A nova geração vai florescendo e é junto dela que perdes o pudor de os recordar em voz alta. Falas-lhe neles, sempre a sorrir, queres perpetuar-lhes a lembrança para que sejam eternos. As crianças são atentas e maravilhosas, gostam de ouvir histórias de família. Interessam-se. Fazem perguntas.

O tempo passa. As lágrimas vão-se perdendo na corrente do tempo. Continuas a lembrá-los diariamente. Continua a custar-te revisitar os cenários de partilha das vidas cortadas. Invadem-te pesadelos, em vez de sonhos belos, excepto um, numa madrugada dum teu aniversário: ela, a Mãe, debruça-se sobre ti, com toda a ternura dum sorriso resplandecente e estende-te uma rosa. O melhor presente de aniversário. Referes-te a presentes sonhados e não àqueles que costumas receber. 

O tempo passa. Já lá vão dezasseis anos. A recordação começa a interromper a sua rotina diária. Os pesadelos seguem-lhe o abrandar. Todavia, de vez em quando, a dor, agora morna, assalta-te, com toda a crueza do desespero profundo, em sonhos esparsos e vívidos. Acordas com a certeza de que, ao abrigo da noite, algum duende maligno abriu a caixinha para onde, afinal, empurraste o sofrimento. Sentes um enorme alívio. Agora é dia, o duende maldito ficou preso nas malhas da escuridão. Com sorte, não se lembra de ti tão depressa. Terá outras caixinhas a desinquietar, espalhadas pela arrumação doutras vidas. 

O tempo passa. Já lá vão dezoito anos. Constatas que a recordação perdeu a cor. Achas estranho. Muito estranho. Se o tivesses que descrever numa palavra dirias, longínquo. Acrescentarias, talvez, desfocado. Ocorre-te a asserção gasta, o tempo tudo cura! Não, não te parece que se trate de cura. Apenas um - como dizer? - evoluir. Não se trata de ter feito o luto, que, de resto, não é nenhuma doença. Muito menos de o ter ultrapassado. Sucede, apenas, que te encontras numa nova fase. A ausência magoa duma forma diferente, porque, agora, se aproxima do esquecimento. Não, não é bem isso, talvez seja uma espécie de afastamento, um longe. Uma ameaça de vazio, velada por um manto de absurdo. Até as lágrimas  manifestam uma recusa surda, presas que ficaram num qualquer nó do tempo. 

Assim como não rejeitaste a dor - não por masoquismo, mas porque não houve maneira - não rejeitas esta espécie de desafiadora ausência de dor. O teu lema é enfrentar. O orgulho e o espírito guerreiro encarregam-se do resto.

O tempo passa. Ainda não encaixas bem esta nova fase. E resumes, (como sempre) sem dramas: sinto saudade de ter saudades! Alguém comenta que a frase daria um bom título para um livro. Respondes que a tens pensada para título dum post do teu blog.





sexta-feira, 19 de agosto de 2016

DEPOIS FOI AQUILO QUE SE SABE!


foi assim
do nada rasgou-se uma alameda de promessas

desfilaram sorrisos e imaginações
cumplicidades irmanadas, de braço dado
narizes no ar, orelhas arrebitadas, olhos desfocados

tudo era atração
bocas entreabertas em forma de beijo
ainda só consumado no desejo

soou música alegre e divertida
guardou-se o pensamento para o desengano
(ingénuo fingimento!)

tudo era encanto
perfumes inebriantes
passadeiras de flores sem espinhos
expressão de promessas incumpridas
(não o são, todas as promessas?)

no fim, afogou-se em vinho
(afoga-se a mágoa em doce vinho?)

tudo era luz, vibração, fantasia, desejo, alucinação
cintilação suspensa no infinito

foi bom, enquanto durou

depois... 

ora!








sábado, 6 de agosto de 2016

O SÉTIMO DIA


Entrou em casa como quem se limita a cumprir mais uma rotina. Atirou-se para o sofá cor de pedra e só encontrou forças para estender as pernas sobre o tampo de vidro da mesa de apoio, que, com o sofá e pouco mais, compunha a decoração da sala. Fixou as pálpebras fechadas, olhos vazios, por dentro, no écran vazio da televisão desligada (mesmo quando ligadas, os écrans são sempre vazios, pensou). Apetecia-lhe uma bebida gelada, mas a inércia e um cansaço pesado impediram-no de se mover. Um calor asfixiante gatinhava pelas paredes, reverberando em ondas opressivas. Fechara o bar pouco antes, após mais um dia, longas horas, a servir álcool aos clientes habituais e aos outros, os que apareciam e desapareciam como se andassem a cumprir a volta ao mundo, com o desígnio exclusivo de experimentar incessantemente locais novos. Era o sexto dia da semana. Seguia-se o sétimo, para descansar. Até Deus tinha descansado ao sétimo dia, depois de se ter dado à invenção do mundo. E, por definição, ninguém o obrigara, nem tivera de aturar o que ele aturava. Horas a fio a encher copos, uns duma coisa outros doutra, a controlar a clientela, gente que, de vez em quando, levantava reboliço, umas chapadas, uns socos, umas cadeiras pelo ar. E ele de intervir, de os acalmar, de restabelecer a calma, aquilo não era nenhuma espelunca, quer dizer, ele sempre se empenhara em que aquilo não fosse nenhuma espelunca. Até tinha contratado um pianista. Nada mau, por sinal. Afundava-se na música (Jazz) com uma entrega semelhante a desespero, talvez fosse mesmo desespero. Pelo menos, tinha a força que só este é capaz de exercer sobre as pobres almas de que se alimenta. Todavia, os sons emanavam com a leveza de breves aves a deambular por céus límpidos, ao sabor de aragens ligeiras e refrescantes. Ela, a mulher alta, esguia, de cabelo dourado a rasar as omoplatas, nunca parava de o olhar, embora com o olhar indecifrável dos míopes. Ocupava sempre a mesma mesa, nem a mais próxima nem a mais distante do piano, como quem pretende escudar-se em terreno neutro. Consoante o ouvia e fitava, fazia deslizar os dedos compridos, de ossos salientes, talvez um pouco masculinos, numa deambulação permanente, ora sobre as pernas, alisando o pano da saia justa, ora à volta duma madeixa de cabelo, como quem precisa de domar ou controlar alguma coisa. Alguma coisa ou alguém, podendo ser ela própria - pensava ele, agora abandonado no sofá cor de pedra. Vinha sempre acompanhada, nem sempre do mesmo homem, com o qual, fosse um ou outro, mal trocava meia dúzia de palavras. E, quando o fazia, mal o olhava, permanecia fixada no pianista, como se hipnotizada pelos sons que ele libertava do piano com uma fluidez de encantamento e uma força de guerreiro. Eles, os acompanhantes, pareciam desempenhar o papel de meros passaportes para a sua entrada no país da contemplação do pianista. Talvez não gostasse de entrar sozinha no bar. Por vezes, tocavam-lhe com os dedos. Eram gestos de ternura, de afirmação ou promessa de posse, ou de mera provocação. Ela não reagia ou, então, revelava enfado ou retribuía mecanicamente, sem olhar, sem sequer olhar. Uma ou outra vez, eles levantavam-se e saiam. Ela permanecia, como quem já se encontra a coberto das fronteiras transpostas, podendo dar-se ao luxo de dispensar o passaporte. Mas, pouco depois, saía também. O pianista, que, na abstração do seu mundo tecido de sons, costumava perder os olhos semicerrados no infinito, não se apercebendo de nada nem de ninguém à sua volta, foi captado pela insistência daquele olhar. Desde a primeira vez, quando a viu entrar num movimento longo e tenso. Retribuiu. Os seus olhos abriram-se para ela. A sua imaginação abriu-se para ela. O seu desejo abriu-se para ela. O coração, não se sabe. Afinal o coração tinha-se-lhe perdido há muito tempo e talvez fosse difícil de encontrar. Talvez já nem existisse. Não que isso devesse fazer qualquer diferença, pois nada no olhar, no corpo ou nos gestos dela sugeria a retaguarda dum coração. Um dia, ele resolveu ousar. Interrompeu a música, agradeceu os aplausos que sobrevoaram o bulício geral, levantou-se e dirigiu-se ao balcão, passando rente à mesa dela e acenando-lhe um sorriso tão cauteloso quanto convidativo. Ela, que, mal ele parara de tocar, baixara a cabeça e mostrara uma inquietação como se fosse urgente partir, retribuiu-lhe o sorriso. Sem cautela, sem a intimidade dum convite, com naturalidade e, sobretudo, com distância. O homem que calhava acompanhá-la naquela noite perguntou-lhe:
- Conheces o tipo?
- Qual tipo?
- Ora, não te faças de parva, o pianista?
- Ah! o pianista, que me lembre não. Porquê, tu conheces? Obviamente, o acompanhante não gostou, sentiu-se feito parvo, ninguém gosta de se sentir feito parvo, fixou-a com olhos afogueados e disse,
- Olha, estou no ir. Vens?
- Não, fico mais um pouco.
Mas só fingiu ficar, como se apenas quisesse desafiá-lo ou desfeitiá-lo. Deu-lhe uma vantagem de cinco minutos, levantou-se e saiu. Antes, porém, dirigiu-se ao pianista, que acabara de beber um gin, encostado ao balcão. Falou-lhe como se o conhecesse de sempre, só para dizer, enquanto lhe passava um papel para a mão, - telefona-me, se quiseres. Ele gaguejou qualquer coisa, não se percebeu bem o quê, e, antes de se ter tornado perceptível, já ela desaparecera pela porta, deixando atrás de si uma sombra de cabelos esvoaçantes e um rasto de perfume duma frescura cortante, com uma nota ácida, tal qual o timbre da voz com que proferira aquelas parcas palavras.  Com o papel amarrotado nas mãos trémulas, ele correu para a porta. Demasiado tarde. Já nem o rasto de perfume permanecia. Ficou especado sob o néon que desenhava o nome do bar, O Sétimo Dia, e só então se fixou no papel. Estremeceu, com um arrepio gelado. Estava liso, tão vazio como o seu copo acabado de beber. 

Sentiu a transpiração a escorrer pelas costas abaixo, desencostou-se do sofá cor de pedra, desceu os pés do tampo de vidro da mesa de apoio e monologou, por que raio me vem sempre à ideia esta história, de todas as que testemunhei no bar? Podia escrever um romance pelo menos do tamanho de Guerra e Paz, só com as histórias que uma data de bêbedos solitários e lamechas me vomitaram para cima, como se tivesse alguma obrigação de os aturar. E sem pagarem mais por isso, às vezes, até as bebidas ficaram a dever. Todavia, é desta história que me lembro sempre. A história do pianista que nunca cheguei a saber se nem sequer tinha coração, se o tinha perdido ou se o chegou a encontrar. E da gaja, daquela estranha gaja.

Naquela noite decidiu fechar definitivamente o bar. Todos os dias passariam a ser o sétimo dia. Aliás, o sétimo dia passaria a ser a ausência de dias. Apetecia-lhe devorar qualquer coisa. Até não haver sobras. Contemplou os dedos. Começou pelo polegar da mão direita. 

Passados três dias, quando a empregada abriu a porta, deparou-se com uma mancha estranha no sofá cor de pedra. E um bilhete amarrotado. Desdobrou-o, cautelosamente. Em branco, nem uma letra ou um vestígio de cor. Vazio.  

(Nota: Escrevi este texto parcialmente sob influência do livro O Inverno em Lisboa, de Antonio Muñoz Molina, que estou a ler com uma espécie de encantamento pelo cariz poético da narrativa duma história de desencanto.)