segunda-feira, 13 de junho de 2016

NUMA PRAIA DO MAR DA MORTE


A casa morava numa praia do mar do norte. Casa isolada, praia bravia. Vento gemente ou irado, consoante, sempre a ventar. Enfiava-se pela chaminé adentro, enchia-lhe as paredes de letras e outros símbolos. Desconhecia-os, mas lia-lhes o sentido, como quem capta habilmente pensamentos alheios ou decifra mistérios (é quase a mesma coisa). Refiro-me à pessoa que morava na casa que morava, isolada, numa praia bravia do mar do norte. Longa era a extensão que conduzia ao mar. Multiplicava-se em areia cinzenta, rodopiando sob o vento, a mando do vento. Longa era a extensão das dunas que separavam do lado de lá, o lado de sabe-se-lá-onde. A vegetação seca e esguia inclinava-se sob a força do vento, como quem foi condenado a fazer vénias à terra. Todavia, ao primeiro sinal de amaino do carrasco, levantava-se até à vertical perfeita, como quem diz, orgulhosamente, não verguei, não vergarei, limito-me a cumprir a sentença, este maldito ter-de-ser, contra o qual não há saída, e daí...

Por cima acolchoavam-se camadas sucessivas de nuvens espessas, grávidas, sempre prontas a explodir em gritos de chuva grossa. Muitas vezes acompanhados do estoiro dos trovões. Mesmo quando se desintegravam, havia sempre nova camada, eterna reserva de cinzento. Apesar disso, certas vezes, uns raios de sol faziam gala de as trespassar. Apareciam e desapareciam, esquivos e provocadores, como se a sua função fosse apenas a de lembrar, alô, alô, o sol existe, é brilhante e aquece, mas não para aqui.

Não que a pessoa que morava na casa que morava na praia se importasse muito com isso. Gostava de chuva, gostava de cinzento. O problema é que também gostava doutras coisas, mas essas não estavam ao seu alcance. Coisas que o vento, vindo sabe-se lá donde, contava, em seu contínuo ventar. Eterna ventania, transmitida em ondas médias e frequência modulada. Com imagem agregada.

E o mar.

Havia o mar, afinal era uma praia. Praia bravia do mar do norte. Poderia ser a praia de Scheveningen, na Holanda. Hipótese plausível, se a tornassem vazia de tudo (farol incluído), excepto da casa. Afinal tratava-se duma casa isolada.

O mar bramia, como quem chama imperiosamente. Um dia, ela, a pessoa, decidiu atender. Estava cansada da conversa do vento, da luta das plantas da duna, do inchaço das nuvens, da inquietação da areia, da provocação esquiva dos raios de sol. E de tudo o resto, sobretudo, de tudo o resto, ou seja, do nada. Tomou as rédeas da decisão que sempre soubera ser sua, espécie de reserva fiel e reconfortante, e caminhou a direito, sempre em frente, em direcção ao chamamento do mar, deixando-o convencer-se que era a ele que obedecia. Não se deteve na fímbria da rebentação, castelo de espuma impetuosa. Adentrou um pé, depois outro, um joelho, o outro joelho, a cintura e assim por diante. Em menos, muito menos, do que leva a contá-lo, tinha os olhos mergulhados no mar. Não os abriu, porque nunca conseguira abrir os olhos dentro de água, como se isso fosse mais difícil do que abri-los para dentro de si. Não fez qualquer diferença. A sua intenção não era de descoberta. Era mesmo e apenas fechar os olhos. Cerrar os ouvidos. Des-sentir. 

Por entre um riso descontrolado - ou seria o mar dentro de si a fazer glu-glu, enquanto o seu corpo, quase a deixar de ser, esbracejava numa incongruência libertadora - sobrou-lhe um pensamento sarcástico, não tarda nada, vão inventar que uma pessoa morava numa casa isolada numa praia bravia do mar da morte





(Fotos obtidas em pesquisa - sobre Scheveningen - no Google)


  






     








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