quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

TEM DIAS!


Nunca te apeteceu riscar a raiva, com traços ríspidos, rápidos, rígidos, traços raspadores de quem se desgarra, esventra, expõe? Rasgar a pele e a carne e depois o osso, até ao inferno do osso, desfazer as unhas na fúria de deixar a medula de fora, exposta? Exibir as frustrações como se fossem troféus, num esforço determinado, raivoso, fulgurante, de quem procura um exorcismo? Matar as frustrações com a fúria devastadora dos riscos com que riscas a raiva, riscos duros, assertivos, gritados em altos berros estereofónicos? Atordoar quem passa, se calha alguém passar, com os teus traços gritados, calculadamente gritados, calculadamente riscados, mas mais nada, calculadamente mais nada? Pura exibição catártica - pura e dura - do que te vai por dentro, deixar à mostra, não para exibir, mas para libertar, explodir, enfrentar e desprezar e amesquinhar e poder ignorar, deixar para trás, se possível para o nunca? Não que importe quem passa, se alguém passa, trata-se apenas de ti, mesmo que tenhas público, que se lixe o público,  fuck the people, isto é contigo, apenas contigo, podes até fechar-te numa caverna para te explodires em riscos e traços e gritos e nunca mais parar, a não ser de exaustão. Já te aconteceu, já te aconteceu? Não respondas, não venhas com a porra duma resposta fofinha, reconfortante, modelo livro de autoajuda ou ronronar de beato S. Paulo Coelho ou o outro, o S. Pedro Chagas-Qualquer-Coisa, poupa-me a isso, a única coisa que agora me apetece, não, de que necessito, é isso, riscar, desenhar a raiva em riscos, não riscos de desespero, que o desespero é coisa que não me assiste, ao menos isso, o desespero já não me assiste, é só raiva, raiva pura, esta necessidade de esfolar até às profundezas do osso, deixar a medula de fora. Podes pensar que isto é completely fucked up (fucked up é muito mais cool do que o correspondente português), não é bonito de se ver, mas repara, a tua presença é-me indiferente, nem sempre foi assim, mas agora é-me indiferente, podes desaparecer que nem dou por isso, e mais, isto não é um espectáculo, muito menos para ti, é uma necessidade visceral minha, só minha, é a mim que me apetece, sou eu que necessito de riscar a minha raiva, não em traços doces de néon, lamúrias, murmúrios de quem pede piedade, consolo, não se trata disso, de nada disso. Não respondas, sei que não estás aí, como poderias responder se não estás aí? Nunca estiveste, criei-te como uma fantasia, naveguei um sonho contigo, eu, logo eu, que não sou dada a fantasias, ok, agora estou a enganar-me descaradamente, sou dada a fantasias, sou, embora nunca perca de vista que são fantasias, sei que não passaste duma fantasia, uma espécie de boneco de papel couché, macio como seda, quer dizer, sedutor, e nunca mais voltaste, aliás nunca estiveste, não posso levar a mal, nem sequer posso dar-me ao luxo de levar a mal. Hoje vou precisar de riscar, riscar, riscar, riscar a minha raiva com traços tão violentos quanta a violência que dita estas palavras. Sou o alvo, não prejudica ninguém, e a mim só pode beneficiar. Uma coisa forte, exuberante, estridente, para variar das fantasias. De resto, sei que esta cena não te assiste. Tinha de usar e abusar desta expressão,  uma vírgula por entre os traços rígidos, nem que fosse à força ou (ligeiramente) a despropósito, como acabou por ser, não te assiste, expressão divertida, ouvi-a ontem e estava desejosa de a utilizar. Afinal, divertimento não contende com raiva, com riscar a raiva em traços ríspidos, rápidos, rígidos, porque riscar a raiva é um divertimento ou se não é um divertimento é uma espécie de libertação, o que não anda longe. Agora, depois destas palavras, raivosamente marteladas no teclado do Mac, talvez consiga respirar melhor. Não que a minha respiração pareça alterada. Acho.



(Fotografia duma das minhas primeiras esculturas, que bem poderia intitular-se A Perfuração da Mioleira :)












segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A ETERNA DANÇA DOS PÁSSAROS


há quem fique e há quem parta
quem se afinque, quem se evada
quem na espera permaneça
quem no voo se abasteça

há um perto que é prisão
há um perto que é promessa

um perto que é evasão
um corpo para cá das grades
a mente em ebulição

há um longe que é distância
há um longe que é rotina

um longe que é simples fuga
um corpo para lá das grades
a mente em introversão

há um pássaro que pousa
as asas presas ao chão
há um pássaro que voa
as asas na imensidão

tão distantes, tão ausentes
tão próximos, tão tocantes

os pássaros são pessoas
uns esperam, outros dispersam

e os voos, listas de espera