segunda-feira, 30 de novembro de 2015

UM MENINO CHAMADO NÃO SEI


É verdade, não sei como se chamava. Só mais tarde me ocorreu perguntar-lhe o nome, aliás, ocorreu-me que teria podido perguntar-lhe o nome. Mas já seguíramos os nossos rumos, sem nos voltarmos a cruzar.
Estava sentado no chão, junto ao portão da Basílica Nuestra Senõra del Pilar, confinante com o Cemitério da Recoleta, essa montra de exibicionismo post mortem, onde ostentatórios monumentos fúnebres, encimados por hieráticos anjos vingadores e figuras afins, albergam os restos corpóreos que, por seu turno, encapsularam almas idas, muitas delas de célebres mortais. Por lá moram as sobras de Evita Péron, embora sob uma simples lápide negra, após o périplo a que o regime dos militares as sujeitaram, assim pretendendo exorcisar  o perigo contido na idolatria do Povo (mesmo - ou sobretudo - após a morte da defensora dos descamisados). 
Mas voltemos ao menino. Sim, tratava-se dum menino, não devia ultrapassar os seis anos, era lindo, de profundos olhos escuros e basto cabelo a condizer, e estava ali sentado, sério, como quem cumpre, escrupulosamente, uma missão de vida. Olhou para a fotografia sem sorrir. Os seus olhos diziam vidas, mas não sei quantas nem quais, apenas posso calcular (ou não). Talvez pertencesse a uma daquelas famílias de sem-abrigo - pais e filhos - que habitam as ruas de Buenos Aires, em natural convívio com os turistas e demais passantes. Ou talvez tivesse residência numa das favelas infernais que prolongam o triste (apesar de colorido) Bairro La Boca, marcando o início da transição para o luxuoso Puerto Madero, abrilhantado por monumentais torres de cristal e tudo o resto. Quem sabe se pertenceria àquelas outras favelas, igualmente infernais, que marcam uma parte da paisagem situada entre o Aeroporto Ezeiza (Aeroporto Internacional Ministro Pistarini) e a cidade.
Passei por ele, pelo menino, e espreitei brevemente a Basílica, resplandecente na sua dourada ostentação barroca.
Voltei a passar - pelo menino - e debrucei-me para lhe entregar uma nota de pouca monta. Arrancou-ma dos dedos como se houvesse o risco de alguma indesejada intromissão. Com a mesma determinação, quase a raiar um duro automatismo, apanhou qualquer coisa do chão, ao seu lado, e enfiou-ma nas mãos, com um gesto imperioso, de quem não admite recusa, talvez motivado pela indecisão ou perplexidade do meu rosto transparente. Pareceu-me um cromo, mas era um calendário para 2016.    
Não houve sorrisos ou agradecimentos, apenas uma transacção. Para já é essa a missão do menino chamado Não Sei, trocar calendários por pesos argentinos, mas os seus olhos contam muito mais. Só não sei exactamente o quê.
Apenas sei que o meu tempo de 2016 começará por ser lido no calendário recebido, em 13 de Novembro de 2015, das pequenas mas determinadas mãos do menino chamado Não Sei.

O Menino


Frente e verso do calendário



Basílica de N.ª S.ª del Pilar


 Imagens do Cemitério da Recoleta



Sem-abrigo em Buenos Aires

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La Boca

Puerto Madero