quinta-feira, 25 de setembro de 2014

DESGOVERNAR: TRÊS TEMPOS

eu prometi
tu distribuíste beijinhos às velhotas
ele abraçou quem calhou
nós prometemos
vós (alguns) pensastes
eles votaram em nós  
 
eu não me lembro
tu matas o Serviço Nacional de Saúde
ela estrangula a Justiça e ele, a Educação
nós destruímos a Economia
vós (quase todos) ficais sem direitos
eles são estúpidos
 
eu retirarei as consequências (e os dividendos)
tu esfregarás as mãos
ela/ele sairá impune
nós estaremos governados
vós estareis desgovernados
eles voltarão a votar em nós 
 
 
 
Entretanto (no que a isto respeita):
 
eu estive morto
eu estou morto
eu estarei morto
 
 
Nota: imagens obtidas em pesquisa no Google.
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

MELHOR É MESMO IMPOSSÍVEL!

Começas a pensar e as coisas prendem-se umas nas outras, ligadas por fios invisíveis, desenhados em formato de teia de aranha ou labirinto, vai dar ao mesmo. Andas por ali às voltas, a tua cabeça anda por ali às voltas, sem ter a noção do que está antes e do que está depois, porque isso não interessa, a ordem cronológica é apenas uma mania de organizar o passado, mania própria duma qualquer obsessão-compulsão com a linearidade, o exatismo (sei que esta palavra não existe, mas acontece que quero usá-la, esta e não outra), uma qualquer febre de perfeição. Como se a vida fosse uma linha recta, desenhada em capítulos e títulos e parágrafos e períodos e frases e palavras e letras, tudo perfeitamente definido, arrumado em quadradinhos estanques e limpinhos, sacudidos do pó e das moscas e de tudo o mais que costuma incomodar a ordem. Acontece que não é assim. Tudo se liga, creio mesmo que não só do passado para o futuro, mas deste para aquele, passando pelo cristal do presente, aquele em que julgas que estás e te queres explicar, à custa duma história muito bem contada, sem lacunas, buracos negros, explosões, tsunamis e outras coisas mais, que, as mais das vezes, nem sequer chegas a (a)perceber. Fazes a ronda do passado como quem procura situar-se em relação ao futuro, melhor, precaver-se do futuro. Verdadeiramente, pretendes organizar-te, acho que é esse o teu desígnio, embora só tu possas saber qual é o teu desígnio. Sabe-se lá se pretendes uma qualquer vingança ou ajuste de contas, uma descoberta exuberante, uma omissão distraída! Só tu podes saber. Talvez não seja nada disso, talvez se trate apenas duma forma diferente de passar o tempo, em vez de outras formas. Uma coisa é certa, estás para a teia de aranha como mosca desprevenida está para a teia de aranha, estás para o labirinto como o cego está para o labirinto. Resta-te encarar essa necessidade de revisão como um hobby barato, um filme aleatório de que és o realizador e o actor principal e - julgas tu! - o argumentista, um filme povoado de actores secundários e improvisos, cujo início julgas conhecer, cuja sequência baralhas sistematicamente e de que nunca conhecerás o fim. Nem a tua febre de linearidade e perfeição to vão permitir. Sobretudo estas. Assim, se fosse a ti, esquecia. 
E fazia o quê? 
Olha, podias lavar as mãos cinquenta vezes, voltar atrás a ver se deixaste o fogão apagado ou a porta fechada umas cinquenta vezes, assim tipo o magnífico Jack Nicholson no filme Melhor é Impossível, sei lá (!), qualquer coisa assim. 
E qual seria o fim de semelhantes atitudes, tão extraordinárias quanto destituídas de sentido? 
O mesmo da tentativa de te ordenares no tempo! 
Não tens nada melhor para me propor ou melhor explicação para me dar? 
Olha, melhor do que isto é mesmo impossível!
(imagem obtida em pesquisa no google)
 
Nota: Esta ideia subjaz, de algum modo, à narrativa de que tenho deixado por aí alguns extractos, sob o título, A Não História De Vladimir Blue 
 
 


domingo, 21 de setembro de 2014

BLUES


Quando revejo os posts que por aqui deixo, encontro sempre - está bem, há umas muito esporádicas excepções - a sentença, Sem comentários. Para ser franca, preferia confrontar-me com uma frase do tipo, Sem palavras!... Melhor , mesmo, era encontrar palavras de retorno. 
Felizmente, as estatísticas revelam que não estou a escrever só para mim! É que, se fosse essa a minha intenção, mantinha um diário fechado a sete chaves. Mas não, quando publico, a minha intenção é comunicar, ou seja, ser lida e, desta forma, estabelecer alguma troca. Seguramente, deformação própria de uma leitora compulsiva...
Não posso dar-me ao luxo de afirmar  que me é indiferente ser ou não ser lida (embora também não possa dizer que a minha realização pessoal dependa disso). Portanto, no meu caso, o facto de me publicar não é apenas por ser essa a regra do jogo. Eis por que gostava de encontrar mais comentários.
Quem se podia dar a esse luxo era Fernando Pessoa, via Bernardo Soares, como se deduz do seu seguinte escrito (que transcrevo, com indicação da fonte).
 




 
E, já agora, muito obrigada a quem passa por aqui e me lê!
Ah, e adorei aquela ideia, escrevo-me para me distrair de viver.
 
  

A VIAGEM


O que é a viagem?
Ah! é tanta coisa, a viagem! É lonjura, é trânsito, é aventura, é libertação, é sonho, é...
Mas o que é, mesmo, a viagem?
É rumar ao infinito, com bilhete de volta muito bem escondido até ao último momento. É isso.
É isso, sim, e as muitas outras coisas mais...
Quero partir.
Vamos!
 
 

 





 
 
 


terça-feira, 16 de setembro de 2014

ANJO CAÍDO

 
... e, naquele (talvez) último dia de praia, a maneira como o mar se desenhava na areia, num esbatimento suave mas assertivo, rasgando uma cicatriz, fez-me lembrar uma linha de demarcação, aliás, de separação (embora a diferença possa nem existir e, existindo, não se saiba muito bem qual vai mais longe, se a demarcação, se a separação)
 
 
 
 
uma linha de separação, pois, em que, a montante e a jusante, jaziam peças soltas, incomodativas, carregadas de significados e simbologias. testemunhas, também, do que já ficara para trás, remetido ao passado, a espécie de passado que é um fardo, repercutido no presente e, talvez, no futuro, com seus pesados desperdícios
 
essas peças soltas podiam estar ali só porque sim, porque sobraram, arrastadas numa qualquer inércia, mas também pode dar-se o caso de terem sido atiradas para ali com um qualquer intuito, um intuito não inocente. em qualquer dos casos, não inocente, porque nada do que se deixa arrastar pela inércia ou se deixa atirar o é
 
como noutras alturas e contextos, limitei-me a registar e aventurei-me a interpretar, embora, nestes casos, qualquer interpretação possa configurar mera ilusão ou invenção ou ficção, sei lá (!), tudo menos inocente, também aqui, tudo menos inocente
 
e concluí, ninguém é ou permanece inocente em presença duma linha de separação. nem o mar nem a areia. e os destroços, quer dizer, as peças soltas são disso mero testemunho. ou veredicto
 
 
 
 
 
 
e permaneciam todas unidas, porque constituíam uma trajectória, a imagem selada duma trajectória. e, sim, a última era um anjo caído. sem asas. perdera-as no caminho
 
 
 
 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

ANTÓNIO VERSUS ANTÓNIO E VICE-VERSA

 
Hoje resolvi interromper a minha greve televisiva - que, com muito esporádicas e contadas quebras, já deve durar aí há um ano, com os inerentes benefícios, pois claro - para assistir ao frente-a-frente ou debate ou lá como se chamam estes episódios, entre o secretário-geral do PS e candidato a candidato (?) a próximo futuro primeiro ministro, António José Seguro, e o, também PS,  Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e candidato a candidato (?) a próximo futuro primeiro ministro, António Costa.
Antes de prosseguir não resisto a partilhar uma dúvida que acaba de me assaltar: então se eles obtiverem igual número de votos nessa candidatura a candidato a ... (por aí fora), como será? Vão a penaltis, para o desempate, ou vamos ter dois candidatos àquilo, a concorrer com os dos outros partidos? E depois, se o partido deles ganhar, vamos ter de gramar dois primeiros ministros ou governam por turnos? Bem, melhor arrumar estas dúvidas e prosseguir.
Parece que a época dos debates entre ambos abriu ontem, mas, como tive um jantar de aniversário e não deu para ver, hoje a curiosidade apertou, não permitindo desculpas nem adiamentos, e pronto, o comando da televisão voltou ao activo. Ainda bem que as respectivas pilhas ainda não tinham agonizado em baba, afinal devem ser alcalinas, será isso?
Devo confessar que a razão de tão mórbida curiosidade era encontrar fundamento para sustentar a minha resposta espontânea à maioria dos mortais que conheço e que gostam de louvar a superioridade do Costa, como se isso fosse uma evidência a toda a prova. À falta de argumentos, invocam sempre o carisma do dito.
Impunha-se-me descobrir onde residia o tal carisma, pois, quanto ao facto de o Seguro ser um choninhas, esse, sim, afigura-se-me cristalinamente evidente.
Portanto, segui o acontecimento com grande atenção, pretendendo não deixar passar nada, para, afinal, confirmar aquilo que já suspeitava e que é o seguinte: entre um e o outro, venha o diabo e escolha (se não for demasiado incómodo para o diabo e achar que vale a pena)! As palavras de ambos são tão estafadas que qualquer Portas ou Passos Coelho estariam à altura de as proferir, como, aliás, não deixam de fazer, quando a circunstância requerer. Sim, porque aquilo foram só palavras, as ideias ficaram estacionadas em qualquer base neuronal remota, se é que existe.  Bem, não estou a ser justa, para além de palavras também invocaram (ou remeteram para) documentos, só que não lhes fixei os nomes, mas estou em crer que não faz diferença, pois o Costa desmascarou a falta de originalidade do documento do Seguro e este não sei o quê sobre o documento (seria programa?) daquele.
Eu sei, devia ter vergonha por ter prestado tão pouca atenção à conversa entre os Toninhos, mas, verdadeiramente, estive mais interessada em captar sinais. Neste ponto, tenho de confessar - não sem o orgulhoso tributo à infalibilidade do meu 6º sentido, está bem, guiado pela atenção a certos factos mais ou menos óbvios, alguns até demasiado óbvios e ... grandes, como os buracos da cidade de Lisboa -  que confirmei, em absoluto, as minhas ideias, a saber, o Costa tem tanto substracto como o Seguro e nenhum dos dois possui tal coisa (sendo, também, o que sucede com o ainda primeiro ministro, deverei concluir tratar-se duma questão geracional?  Não, não pode ser, para além de que detesto generalizações!).
Mas ainda descobri umas coisas complementares: quanto ao suposto carisma (do Costa), só pode mesmo residir no sorriso gingão, assim a armar a eu-sou-todo-bom-eu-domino-isto-ou-talvez-o-mundo. Na verdade, quando manteve uma fisionomia séria, mais parecia um coelho assustado, receoso de que o camarada o ultrapassasse, e, quando se mostrou  mais acintoso para com o outro, deixou sempre brilhar o sorriso triunfal. Ao menos para mim, está demonstrado, o carisma do Costa é o sorriso, aquele sorriso.
Já o ar  choninhas do Seguro advém do descaimento das pálpebras, qual François Hollande português,  e de dois dentinhos da frente que afloram tímida e graciosamente, quando esboça aquele sorrisinho sonso.
Se eu fosse o António Costa, ao menos enquanto estivesse em campanha, não havia de parar de sorrir nem um único segundo, ainda que acabasse com dores insuportáveis nos maxilares (talvez obtivesse junto do eleitorado o mesmo efeito que as promessas do Passos Coelho, de que não iria cortar o 13º mês, nem mexer nas reformas, nem subir impostos, nem ... essas coisas todas que ele disse em campanha e depois, coitado, não pôde cumprir).
Se eu fosse o António José Seguro, ao menos enquanto estivesse em campanha eleitoral, havia de coleccionar casos amorosos como se não houvesse amanhã, para ganhar a aura de sexy que o François Hollande, o original, conquistou em cima duma moto clandestina; e se uma ex viesse publicar um livro a agradecer-lhe aquele bocadinho, então ainda melhor (talvez obtivesse junto do eleitorado o mesmo efeito que as promessas do Passos Coelho, de que não iria cortar o 13º mês, nem mexer nas reformas, nem subir impostos, nem ... essas coisas todas que ele disse em campanha e depois, coitado, não pôde cumprir).
Está bem, estrategicamente, talvez o Seguro tenha sido um bocadinho mais espertinho, pois procurou virar o discurso contra o governo, sem deixar de aproveitar as afrontas do Costa, para, calmamente, lhe atacar o carácter; já o Costa,  foi um bocadinho mais espertinho ao pretender colar o Seguro ao passado socialista, em especial ao socratismo (e logo ele!), mas mais parvinho ao deixar-se apanhar na esparrela do oportunista, que, por sinal, lhe assenta como uma luva (ou assim parece).
Acabou de me ocorrer uma ideia sinistra: talvez deva regressar mais vezes à televisão, para voltar à crónica para-política...
 

 
Nota: imagem obtida  em pesquisa Google.
 
 
 
  


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

ALTAS PRESSÕES


hoje perdi um belo dia
por causa dos senhores da meteorologia
deixo-lhes aqui um mapa
de leitura difícil, é certo
qual a crise
se nunca acertam?
quem disse isso da harmonia
essa imposição de pares nas cores?
estou-me nas tintas
já é sorte não ter usado o incolor
até podia
hoje apenas pretendi apaziguar o fundo
era negro, bem negro
ainda sobressai
não lancei mão do esforço
de especial mestria
e nem sei por que meti nisto
os senhores da meteorologia



A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (VII)

 Natasha cresceu com a estranheza dos outros estampada nos olhares alheios, mesmo ou sobretudo os da própria família, que não lhe entendiam o isolamento crescente, primeiro na rocha-ninho da praia, depois num canto da escola, conforme relato da professora e gozação dos colegas, e, sempre, no canto do exíguo quarto que partilhava com a irmã. Aqueles olhares furavam os seus olhos como a ponta de dedos afiados, por isso passou a baixá-los, do mesmo passo que se metia para dentro, ampliando o mundo interior com as parcelas que lhe sobravam da incompreensão, quando não da hostilidade alheia. Nesse mundo, o pai, suspenso no nevoeiro da incompreensão gerada por aquele desaparecimento sem notícia de regresso ou sombra de vestígio, ocupava um lugar cada vez maior. Mas como na vida tudo tende à mudança, uma mudança assombrosa veio a acontecer-lhe.
Atingida uma adolescência precoce, pouco passava dos onze anos, Natasha decidiu desistir das coisas incompreendidas e, em particular, do desaparecido, e, em contrapartida, começou a verter-se para fora, à procura de preenchimento que o seu espírito, já cansado, necessitava e que, em breve, o seu corpo espigado passou a reclamar. Sentia coisas vagas e não entendidas, mas que sabia serem impossíveis de não corresponder e, assim, o seu olhar, outrora mudo, passou a falar aos rapazes.
A estranheza dos outros continuou, porque já a tinham catalogado e não eram dotados da argúcia, do tempo ou da atenção necessários para repararem na mudança. De empatia, melhor nem falar.
Foi assim que voltou a escapulir-se para a praia, não para o seu antigo ninho de rocha, mas para a áspera macieza das dunas, passe a contradição, sempre acompanhada por um rapaz, o seu namorado, como dizia para si própria, embora nem sempre fosse assim. Verdadeiramente, nem todos a quiseram como namorada, a maior parte apenas quis o seu corpo para despejar as febres duma adolescência carregada de borbulhas, inexperiência, pressa e pouca sensibilidade ou consideração. Por volta dos treze anos, Natasha passou a ser apontada pelas colegas mais sonsas e pelos colegas mais abusadores e os mais despeitados, e o som dos dedos apontados fez-se ouvir em sua casa, até que a mãe foi invadida, olhos adentro, pela agressão daquele ruído surdo, e, finalmente e com estrondo, pela mudança da filha, passando o seu olhar da estranheza doutrora a uma estranheza diferente, que era um misto de raiva, desprezo e vergonha, talvez por uma ordem diferente, vergonha, raiva e desprezo. Dos esporádicos tabefes que Natasha, quando remetida ao seu mundo interior, raramente levara, passou-se às monumentais tareias, merecidas pela sua nova e provocante exteriorização, às mãos iradas e às palavras duras e estridentes da mãe, quando não dos próprios irmãos, os rapazes, que a irmã, tomada de pacatez e recato, não partilhava, embora apenas por lhe ser indiferente a sorte da mais nova.
A vida de Natasha evoluiu para o descuido dos estudos, na desilusão adquirida de nunca poder vir a aprender nada que lhe permitisse resgatar o pai, único desígnio a que, até então, se propusera - o resto, a sua entrega aos rapazes, não era desígnio, era apenas necessidade de preencher algo que ainda ignorava tratar-se dum vazio, embora também duma necessidade natural precoce. Mas, um dia, tomou consciência disso, dessa ideia de vazio – traduzida em necessidade de ternura e de futuro, ela que, após a partida do pai, tinha vivido na ignorância dos afectos e na obsessão de resgatar o passado, o mesmo é dizer, no desejo dum futuro impossível e irrealizável -, coisa percebida por contraste com o que recebia em troca da sua dádiva ou da dádiva do seu vazio aos apetites dos rapazes. Passou, então, a centrar-se numa nova ideia, preencher aquela fome de amor, que a falta do pai e a hostilidade crescente da mãe lhe haviam deixado como ferida aberta. Aí chegada, jurou a si própria que a era das tareias tinha acabado. Cerrou os dentes para não chorar. Cerrou o corpo para não se desperdiçar. E aguardou, num novo recato. Ele havia de surgir para a resgatar, o amor sonhado, O AMOR. Tinha 15 anos. Readquiriu o interesse pelos estudos, recomeçou as leituras interrompidas por aquele período de experimentação do corpo, mas não se fechou. Apenas se recatou, não deixando, todavia, de se mostrar diferente na atitude, tão diferente que parecia impossível ser a mesma das dunas. Reflectia nisto, orgulhosa da sua decisão e capacidade de realização, esperançada no futuro desejado, contidamente inquieta na sua espera. Reflectia, também, em como, até então, a sua vida estava tão ligada à praia, primeiro o mar maldito, depois as dunas malditas, deixando-se enredar numa suspeita – ou seria ameaça? – de mau augúrio. Sucedeu isto enquanto passeava pela praia, só e um pouco distraída.
De tão distraída, nem reparou no modo intenso como era observada por um homem que caminhava em sentido contrário. Esse homem viria a ser Piotr e viria a confirmar que a praia nunca haveria de lhe trazer nada de bom. A sua próxima demanda teria de ocorrer bem longe do mar roubador, das dunas exploradoras, da praia sedutora e cruel. Foi o que veio a concluir mais adiante, que o futuro só se revela quando já é passado.
Piotr, o homem maduro, 15 anos mais velho do que ela, dotado dum corpo alto e musculado e duns grandes olhos negros, que mergulharam no verde lago dos olhos de Natasha, como se uma invasão de convites e ilusões. Sim, Piotr tinha-se mostrado deveras sedutor e protector, e ela, na inexperiente inocência dos amantes crédulos e carentes, tinha-se deixado arrastar nas promessas dele. A experiência anterior com os rapazes da escola não lhe servira para nada, naturalmente, porque as regras destes eram diferentes das de Piotr, tão diferentes, desde logo na falta de mentira, embora traduzida em pura boçalidade.
Não houve dunas, porque Piotr a levou para um motel e, mais tarde, para casa, onde acabou por se instalar, fugida da casa da mãe, que, mais uma vez, não tivera tempo, argúcia ou atenção – de empatia, melhor nem falar - para se aperceber da sua nova mudança. Depois foi até engravidar e aquilo que se passou a seguir e já se sabe.
 
 

sábado, 6 de setembro de 2014

COMO O PALHAÇO RICO

 
e ainda outra coisa, já há algum tempo venho notando que apareces sempre disfarçado. sim, podes perguntar que eu respondo, disfarçado de palhaço rico, sorriso fixo de orelha a orelha, rasgado na cal brilhante do rosto angular, duas pintas negras desenhadas a meio das pálpebras, uma na superior, outra na inferior, mesmo a meio do traço que podia cortar verticalmente os teus olhos, também negros, também fixos, presos naquele esgar de sorriso que não pode deixar de acompanhar o traço fino, de orelha a orelha. da roupa, a condizer, nem tenciono falar... está bem, se queres, também te digo, aquele fato de cetim branco (ou é marfim? talvez prateado ...) a expandir-se numas calças ridiculamente largas à altura dos joelhos, afunilando drasticamente, para terminarem nuns enormes e pontiagudos sapatos negros, também negros, de verniz, tudo brilhante, sim, essa insistência nos brilhos obtusos, como se qualquer demonstração precisasse disso para se demonstrar (ainda não percebeste que as demonstrações se demonstram por si próprias, dispensando a ilusão das aparências falsas?), tudo a condizer com a espécie de casaco ou jaqueta ou lá o que é, semeado de lantejoulas, mais brilho, mais engano, e é assim, já que insististe em saber. é claro que o cabelo escorre em gel, adivinha!, cheio de brilhos e separa-se ao lado, muito alinhado e composto, como tu, também tu apareces muito alinhado e composto, com o tal sorriso, como quem diz, sou feliz, cumpri o meu objectivo de vida, sou feliz. nem agora desfazes esse sorriso imposto, embora note uma alteração no teu olhar. sabes o que te digo, nesse teu percurso pelos circos..., o quê? não, não é isso, não te confundo com um palhaço, no caso, o palhaço rico, foi apenas um recurso, uma comparação de que lancei mão para me fazer entender, sei bem que não és um palhaço, e esta coisa do circo era apenas outra imagem, pretendia significar o teu percurso, todos nós temos um percurso, embora as mais das vezes nos julguemos estagnados ou repetidos em claustrofóbicos círculos, é o mesmo... quase me perco com todas as tuas interrupções, mas o que, finalmente, pretendia dizer-te era isto, apenas isto, não precisas de estar sempre a sorrir, vê lá se entendes que a felicidade não é o objectivo da vida, mas, quando muito, um objectivo para a vida. está bem, é óbvio que podes sorrir quando te apetecer, mesmo (ou sobretudo) quando não estiveres feliz, não percebo é essa espécie de sorriso fixo, alcandorado em mil brilhos. soa a tristeza. já disse. e não gosto de te ver triste.
 
mesmo quando não sou feliz?