domingo, 29 de junho de 2014

A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (III)

O projecto Vladimir Blue - se assim se pode dizer, o que não é o caso, visto não ter sido programado - apertava os joelhos moles contra a transparência macia daquela aparência de peito, numa inquietação precoce, quando a ferida rebentou, súbita, no seu minúsculo cérebro (apenas meia dúzia de neurónios, por essa altura), acendendo-o, não pela primeira vez, para a estridência do lado de lá, que, mais do que o aguardar, já lhe residia por dentro, firmemente instalado. Ela desviara a cara, num reflexo não suficientemente sincronizado com a habituação, e apanhara, em cheio, na face esquerda, a brutalidade do punho cerrado, sem outra justificação que não fosse um longo historial de álcool, misturado com frustração, raiva e possível confusão da sua pessoa com um saco de box, só podia. Devagarinho, baixou a cabeça e deixou escorregar uma lágrima surda, que, em breve, se misturou com o fio vermelho que lhe escorria pelo lábio rasgado. Acima de tudo, não queria que o seu choro fizesse barulho, não fosse a criança inquietar-se e nascer sobressaltada. Sim, ela, Natasha sem apelido, queria aquele nascimento e garantir que o seu produto surgisse, se não envolvido em paz, está bom de ver que isso seria impossível e ela não era propriamente irrealista, pelo menos, não afectado pelas marcas da porrada física e psicológica infligida por aquele homem, em cujas malhas estupidamente se deixara prender. Ele, pelo contrário, não estava sequer interessado na criança, quase impusera o aborto, não por palavras mas com uma sova monumental, quando a notícia da gravidez lhe fora comunicada.
Vladimir Blue agitou-se no banco, os seus olhos brilharam de fúria e levou as mãos aos ouvidos, com o desespero dum grito engolido. Foi a primeira vez que a Sombra lhe viu as mãos. Eram, de facto, rígidas e nodosas, mas o que mais impressionava eram os cortes em ziguezague que grossas cicatrizes lhe desenhavam na palidez, quase translúcida, da pele, coexistindo com uma rede ostensiva de veias salientes. Aquilo mais parecia uma fotografia por satélite dum campo de guerra inacabada. A Sombra encolheu-se imperceptivelmente, não fosse a agitação de Vladimir Blue piorar.
O projecto Vladimir Blue amarfanhou-se mais, naquele saco de águas cansadas, e aguardou que a estridência fosse desaparecendo, qual eco perdendo-se em círculos concêntricos na lonjura do esquecimento. Aquilo não prometia nada de bom, a qualquer momento podia voltar a estoirar, e era sabido que a surdez do choro se lhe seguiria, porque, mau grado ser surdo ou talvez por isso mesmo, fazia-se ouvir mais alto e feria mais do que se fosse declarado, expansivo, revestido dum qualquer significado perceptível, por exemplo, uma revolta ou uma tentativa de retaliação, para não dizer, de libertação.
As vozes soaram, a dela, tímida e cautelosa, a dele, bruta e potente
- Ao menos poupa a criança, já não falo por mim.
- Se é só por isso toma lá outra, com os meus cumprimentos para a maldita criança – e Piotr voou, novamente, a mão fechada, na direcção do rosto dela.
E foi assim que Vladimir Blue ficou a saber que era uma criança ou melhor, a criança, uma criança talvez nunca pudesse vir a ser, concluiu a Sombra, enquanto ele se levantava num repente de aceleração, seguindo o caminho da saída sul do parque, no seu habitual passo apressado, como quem foge duma qualquer ameaça de perseguição.
 
 

sábado, 28 de junho de 2014

A CARTA QUE NÃO FOI


quero escrever-te, descrever-te, inscrever-te, transcrever-te. quero escrever-te, para te dizer os adjectivos com que te descrevo, para te anunciar o modo como te inscrevo e o desejo que tenho de transcrever-te.
desejo que concretizo, porque eu não ameaço, eu faço o que quero, quer queiras quer não, porque está ao meu alcance, isso, tudo isso, embora possa ser ou parecer apenas isso, escrever-te, descrever-te, inscrever-te, transcrever-te.
sei que já recebeste a carta, oh! não, não foi carta, foi e-mail, que te escrevi. sei que bebeste os adjectivos com que te descrevi. sei que percebeste como tinhas ficado inscrito em mim, tão tatuado a fundo, coisa que antes nem sequer tinhas notado (curioso, ainda há pouco ouvi dizer que um homem era bem capaz de não entender quando uma mulher o ama, não sei se por distracção, desinteresse, mal entendido ou medo, mas isto já sou eu a acrescentar).
falta-me perceber se percebeste que te transcrevi, eu própria não sei bem se consegui. transcrever-te, transcrever alguém, requer menos ímpeto, mas está rodeado duma rendada tessitura de melindre, talvez seja o mesmo que guardar-te, inteiro, conservar-te, mesmo depois de teres partido ou até antes de sequer teres chegado.
assim, abalancei-me, escrevi-te, descrevi-te, inscrevi-te, mas, para ser honesta, não estou certa de poder ou sequer querer transcrever-te.
olha, já percebi, ninguém transcreve ninguém, não é possível nem sequer desejável. já viste o peso que seria carregar uma pessoa transcrita? e a solidão?
assim, por muito que me custe, não te transcrevo, já não te transcrevo, foi mero ameaço de desespero.
retiro a carta, melhor o e-mail, não chegaste a ver nada, nem que te escrevi, nem que te descrevi (e eram do melhor, os adjectivos!), nem que te inscrevi na minha pele como uma tatuagem funda, nem que não cheguei a transcrever-te.
como não deste por nada, não vale a pena acenar-te com palavras e muito menos com gestos.
fico por aqui, talvez a transcrever-me e a desinscrever-te de mim.
mas da próxima vez, quero tudo claro, talvez com palavras ditas, solenidades dispensam-se, não há necessidade de escrever.
estás a ver a diferença?
 
 





 
 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ONLY LOVERS LEFT ALIVE


SÓ OS AMANTES SOBREVIVEM (na tradução portuguesa), de Jim Jarmusch, é um filme absolutamente fascinante e encantatório.
 
Desde logo, pela originalidade e subtileza do argumento, em que se assiste à desconstrução pura do mito do vampiro, enquanto ser predador e insensível, e, do mesmo passo, se inverte a perspectiva de reflexão, passando-a para o lado do vampiro, em relação à humanidade, em detrimento da habitual, de sentido inverso. Temos, assim, um vampiro dotado da mais elevada sensibilidade artística - compositor de belíssima música (fúnebre) e coleccionador de maravilhosos instrumentos musicais - e, simultaneamente, ferido pelo desencanto (depressão?), por, ao longo da sua existência de séculos, testemunhar a constância da maldade (ou será estupidez?) dos zombies, quer dizer, dos seres humanos, que não há maneira de aprenderem com os seus erros. Acresce o amor entre o vampiro e a vampira - personagens principais -, não um amor qualquer, mas um amor de séculos, que permanece, aqui e agora (e sempre), tecido no romantismo duma ligação cúmplice, profunda, intemporal e, até, interespacial, revelada, aliás, duma forma bela, sugestiva e eloquente, na pose em que os seus corpos repousam, entrelaçados e harmónicos. Esta simbologia encontra-se, também, na invocação da teoria da interligação das partículas e no papel que esta assume no desenho do final do enredo - de que, por motivos óbvios, nada vou adiantar.
 
  
 
Não sem o mesmo relevo, impõe-se salientar a beleza e o significado da ambiência transmitida, quase onírica ou surreal - quer por via dos cenários, quer por via da fotografia -, bem como a mestria com que a narrativa é conduzida, elementos que me produziram, só por si, um tal encantamento que, mesmo no tempo inicial do filme, enquanto se retarda a revelação do enredo, admiti bem poder prescindir deste. Aliás, estabeleci uma associação automática com aquelas obras primas da literatura, que maravilham pela qualidade e profundidade da escrita, e não, necessariamente, pela história contada.
 
 
As interpretações, maxime, da Tilda Swinton e do Tom Hiddleston, são magistrais. E  adorei a banda sonora.
 
Enfim, um dos filmes mais belos dos últimos tempos!   
           
 

Nota: Imagens obtidas em pesquisa Google.



 

sábado, 21 de junho de 2014

BALANÇO DO GRANDE BOICOTE DE 3102


Nem é que tenha por hábito fazer balanços, mas o ano de 3102 mereceu, quanto mais não fosse porque me levou a descobrir que, afinal, estava viva (sim, houve alturas idas, em que, tomada duma dúvida sincera, embora aparvalhada, me interroguei sobre se já teria morrido sem sequer me ter dado conta).
Então, no dia 30 de Novembro de 3102 - curioso, como os dias e os meses continuam a contar-se como há, pelo menos, 1000 anos! -, quando sabia que, até ao fim do ano, já nada se alteraria, escrevi mais ou menos assim (digo mais ou menos, visto não poder reproduzir todas as palavras que, então, usei, poderia ferir susceptibilidades):
 
Este foi o ano em que descobri que estava viva, bem viva, e me boicotei indecentemente, para não viver.
Este foi o ano, de muitos anos, talvez de todos os anos, em que tive as nuvens ao alcance da ponta dos dedos e me recusei a tocar-lhes, indecentemente me recusei, sequer, a tocar-lhes, com medo de que se evaporassem, de que se evadissem para os céus longínquos, feitas chuvas de sentido contrário ou pó ou nada.
Este foi O ano.
Este foi o ano em que mais valia não me conhecer nem me ter conhecido, pois assim evitaria todos os indecentes boicotes de que me armadilhei.
Podia ter caído fundo, caso tivesse optado por me deixar viver. As alturas eram de muitos píncaros.
Todavia, recuei, absurdamente, racionalmente, recuei para o pátio sombrio da estagnação.
Vejo-me ficar para trás, cada vez mais para trás, mais e mais pequena, mínima, até o comboio se esvair na ausência. Vejo tudo isso como se um filme ao contrário, o comboio parado e eu a desandar para trás, em vertigem alucinante, até ficar reduzida a uma figurinha de mim, minúscula, povoada de desassossego em sobressalto.
Este foi o ano de todos os anos. Talvez. Foi o mister universo de todos os anos, o pai (a mãe e o resto da família) de todos os anos.
Enfim, foi o ... do ano que podia ter sido mas não foi.
Nos outros aspectos não foi mau.
Eis o meu balanço do ano do boicote mais idiota - logo, racional e irracional - de que há memória. O ano em que podia ter ido mais além e podia ter-me estampado, aliás, era o mais certo. Mas assim, estampei-me sem ter ido. E já não vou. Acabou-se o tempo de ir.
What a fucked year!
 
Agora, que aterrei no estúpido ano de 4102, precisamente em 7 de Abril - curioso, os dias e os meses continuam a contar-se como há, pelo menos, 1000 anos! -, já dei comigo a escrever assim:
 
Isto merece um ponto final, finalmente, um ponto final, esquecer o que tem de ser esquecido. O que não foi. PONTO FINAL! Haja paz e volte-se aos oásis do deserto.
 
Entretanto, não paro de me lembrar de que é preciso esquecer...  
 
 
 
 
 


quarta-feira, 18 de junho de 2014

PARA NUNCA ESQUECER O SR. ALEMÃO

 Algures na bruma das memórias da minha infância, reside um Sr. Alemão, assim, com maiúscula, porque, tanto quanto julgo saber, se tratava dum nome e não duma designação de nacionalidade. E daí, quem sabe? Talvez se tratasse mesmo dum  alemão ou, hipótese eventualmente mais acertada, dum português com traços físicos ou de carácter ou, até, comportamentos, próprios dum verdadeiro alemão. Que sei eu, a esta distância e sem a recordação de alguma vez ter conhecido o Sr. Alemão?
Na verdade, trata-se, apenas, duma referência abstracta, que, por qualquer razão, estacionou na camada neuronal semiadormecida dos eventos idos, que permanecem comigo e me visitam de vez em quando, vá-se lá saber porquê ou para quê.
 
(Talvez para alimentarem um blog resistente, que sobrevive, mesmo sem aparência de leitores - não fossem as estatísticas -,  e com muito ocasional feedback - leia-se, comentários escritos, classificações, etc. Estou, até, a pensar mudar-lhe o nome para qualquer coisa como, ladro mas não mordoa falar pró bonecoamo ler-me, vou ali e já venho, cansei ou outra do género.
Ah! vejo-me forçada a interromper isto, pois, daqui a pouco, tenho de ir acabar um desenho que ando a engonhar há uns tempos. Isto de manter um blog como este dá cá uma trabalheira!
Já fui!
Já voltei e regresso ao Sr. Alemão.)
 
Pensando bem, creio que ele não se chamava Alemão, era chamado alemão, por revelar algumas idiossincrasias de tal povo, a saber:

a) Cumprimentava os vizinhos com um braço hirto, esticado até à ponta dos dedos e levantado aí pela altura do ombro, efeito conseguido com um sacão ríspido, como se tivesse uma mola na axila, rosnando heil, seguido do nome do cumprimentado, assim tipo:


 b) Exibia um bigodinho patético, aliás, meio bigodinho patético, plantado a meio duma carantonha ridícula, mas estava convencido de que era bonito, alto,  atlético e de que tinha um brilhante cabelo cor de espiga de milho, enfim, o supra-sumo definitivo duma raça  inultrapassável, aliás, inatingível, assim tipo:
 
 
c) Sob esse pretexto, mandou construir um forno no quintal, donde se evolava um fumo sinistro, que os vizinhos fingiam não sentir, apesar de bem saberem quem por lá passava e para quê, assim tipo:
 
 
d)  Era bufo, tal como, muito mais tarde (ontem, exactamente), se havia de revelar um tal de Wolfgang Schauble, ministro das finanças alemão, ao deixar passar que, antes de o governo português ter decidido prescindir da última tranche do empréstimo da troika, já se tinham encontrado e tinha manifestado a sua concordância, como quem diz (para bom entendedor), nós cá, os donos disto, autorizámos os pobres tugas a prescindirem da tranche. Ora, não se faz! Andava o governo português todo ufano e vitorioso,  naquela pose toureira tão do agrado do 1º ministro, de somos os maiores, não precisamos dos trocos da troika para nada, o povo já todo num alvoroço, a pensar, estamos ricos, estamos ricos, e vem o desmancha-prazeres do chatinho do alemão lembrar que estamos aqui para cumprir ordens e é só ele querer e lá vamos nós ter de pedir novo empréstimo e etc. e tal. Pior, com a sua atitude de bufo, pôs a claro uma coisa que ninguém sabia (nem desconfiava, calcula-se), ou seja, que o governo português, antes da decisão, foi pedir a opinião dos descendentes dos nazis. Só falta vir anunciar que teve uma reunião com o Paulo Bento antes do jogo das selecções nacionais de ambos os Países, ou melhor, do país Alemanha e da província Portugal.     

  
Isto era a propósito de quê? Ah! já me lembro, do Sr. Alemão das memórias da minha infância...
 
Nota: Fotos obtidas em pesquisa no Google.


 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

AH! ESQUECI-ME QUE NÃO ÉS!


és:
  • a água da minha sede
  • a vertente da minha montanha
  • e, também, o cume da montanha de mim
  • o lado de lá do meu horizonte
  • o vinho e a festa do meu prazer
  • o flirt do meu devaneio
  • a promessa cumprida do meu desejo
  • a teia secreta do meu mundo imaginário
  • a obra prima da minha criatividade
  • o caminho dos meus passos
  • a cama do meu cansaço
  • o colo da minha tristeza
  • o riso da minha alegria
  • a compreensão das minhas dúvidas
  • a ausência da minha nostalgia 
  • e, também, dos meus medos
  • a linearidade do meu perfeccionismo
portanto, não és
também não queria que fosses
poderia não aguentar

podias ser apenas tu
talvez eu fosse para ti:
    • a água da tua sede
    • a vertente da tua montanha
    • e, também, o cume da montanha de ti
    • o lado de lá do teu horizonte
    • o vinho e a festa do teu prazer
    • o flirt do teu devaneio
    • a promessa cumprida do teu desejo
    • a teia secreta do teu mundo imaginário
    • a obra prima da tua criatividade
    • o caminho dos teus passos
    • a cama do teu cansaço
    • o colo da tua tristeza
    • o riso da tua alegria
    • a compreensão das tuas dúvidas
    • a ausência da tua nostalgia 
    • e, também, dos teus medos
    • a linearidade do teu perfeccionismo
não, necessariamente, todas estas coisas
podias não aguentar
mas algumas

está bem assim, aceitas?

Ah! esqueci-me que não és...







domingo, 15 de junho de 2014

O DESAPARECIMENTO DO SR. MARQUÊS E O SR. PROFETA

 
Há dias, dei comigo a interrogar-me sobre o que será feito do Sr. Marquês e do Sr. Profeta, com a triste suspeita de que ambos tenham partido com a morte. Nem sei se deva dizer triste, pois triste parecia ser a vida deles, muito triste, abandonados na rua que cruza a da minha casa, nos poisos acidentais da calçada portuguesa que reveste os passeios ou ao abrigo do tecto improvisado pela reentrância dum prédio de esquina.
 
Assim, num repente, tomei consciência de ter deixado de ver o Sr. Marquês, e, no repente seguinte, apercebi-me da igual ausência do Sr. Profeta. Eram vizinhos de paradeiro.
 
O Sr. Marquês tinha um olhar altivo, de quem já foi relevante, melhor, de quem conserva a relevância em estado absoluto, fora de dúvidas, independentemente das aparências em contrário, independentemente dos olhares alheios e, mais ainda, da falta de olhares alheios. Um baraço segurava-lhe as calças, donde se projectava a proeminência do ventre. Sentava-se de cabeça erguida, olhava nos olhos de quem o olhava, como que estabelecendo um desafio, e não agradecia as ocasionais esmolas, como se estivesse muito acima da natureza hedionda da própria palavra esmola, quanto mais da palavra transformada em acto. Nunca falei com ele, nunca lhe soube o nome, mas a sua postura leva-me a chamar-lhe assim, o Sr. Marquês, se bem que tomaram muitos marqueses ostentar aquela aura altiva, aquela consciência de si e, sobretudo, de que as aparências nada são quando comparadas com as almas ou espíritos ou mentes ou lá o que for de quem é levado a vesti-las. Uma garrafa andava sempre por perto do Sr. Marquês, que, ocasionalmente, descansava o corpo - e, talvez, a mente - na calçada.
 
O Sr. Profeta era outra natureza, bem diferente, estava para além da relevância, possuía grandes barbas esbranquiçadas, embora tingidas duma espécie de fuligem, por certo devida à exposição permanente à poluição da rua, e cresciam para os lados, talvez porque a sujidade lhes desse uma espessura que as impedia de pender, por isso eu disse grandes barbas, em vez de longas barbas. Vivia enrolado em casacos ásperos - ou seriam trapos, mais pareciam! -, fosse Verão ou Inverno, tinha um olhar povoado de inquietação e angústia, que, de tempos a tempos, explodia num potente grito, cheio de aflição. Era assustador, aquele grito, não porque sugerisse a ameaça duma agressão aos passantes, mas porque significava um desgoverno, uma dor e um desassossego tão intensos, que causavam medo só de testemunhar - e de, testemunhando, idealizar a sua hipótese de explicação. Nunca falei com o Sr. Profeta, nunca soube o seu nome, mas aquelas barbas e a divagação perdida que morava no seu olhar levaram-me a chamar-lhe assim, Sr. Profeta. Vivia rodeado de garrafas, creio. Nunca o vi deitado no chão, talvez porque o seu corpo e, sobretudo, a sua mente, não tinham como descansar. Sentava-se sobre uns trapos e soltava os seus gritos espantosos e espantadores.
 
Eu olhava para ambos, orgulhava-me da arrogância do Sr. Marquês e afligia-me com a angústia do Sr. Profeta, talvez porque ambos eram espelhos em que pessoas atentas e, principalmente, empáticas, não podem deixar de se reconhecer, espelhos que retribuem a imagem daquilo em  que cada um de nós também poderá tornar-se, mas, sobretudo, a imagem das pessoas que somos, enquanto elementos duma sociedade que permite que seus iguais possam tornar-se naquelas aparências, quando, na realidade, eles são PESSOAS!
 
Atenção, isto não é ficção - género a que, ultimamente, me tenho dedicado mais - e também não é um choradinho. É, na verdade, o testemunho da minha memória daqueles dois senhores, desaparecidos dos passeios e dos vãos da avenida, sabe-se lá por que motivos, mais provavelmente porque não aguentaram mais um mau inverno ou mais este inferno.
 
Estejam onde estiverem ou em lado nenhum, estejam em paz, Sr. Marquês e Sr. Profeta, que a serenidade do esquecimento tenha substituído a arrogância dum e a angústia do outro (porque, finalmente, estas já não vos façam  sentido e, muito menos, falta).
 
Este é o meu voto e o meu tributo.
 
 
 
 O DESCANSO DO SR. MARQUÊS
 
 
 
 
 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

TANTO FAZ


se esse peito se abrisse, de repente
rasgo de lâmina acesa
 
nem me atrevo a imaginar!
 
soltavam-se flores selvagens
gritos desnorteados
um coração queimado?

cânticos de mel
pássaro esguio
joaninha levando cartas?
 
asas, é isso
 
soltavam-se asas de voar
transparências de vento
murmúrios de prata cintilante
 
deixavas-te para trás
subias, subias, subias
esgotavas a altura mais alta
rasgavas o risco da altura mais alta
corte da lâmina acesa
 
depois, fechava-se
esse peito fechava-se
oculto o vazio da desnecessidade
 
e era tudo... ou nada
tanto faz
 


 
  
 
 
 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

DONDE HAY AMOR, HAY DOLOR


Donde hay amor, hay dolor, eis a frase chave do filme Quase Gigolo, do John Turturro, interpretado pelo próprio e pelo Woody Allen (para além doutros nomes sonantes). 
Belíssimas interpretações, as de ambos, a do primeiro, no registo do personagem solitário, sensível e romântico, expressando-se mais pela profundidade e pela lonjura dum olhar desamparado, do que por palavras, a do segundo, no registo dos personagens que lhe são habituais,  e a que sempre imprime um cunho tão particular, naquela espécie de distracção da vida, meia infantil, meia excêntrica, e nas típicas idiossincrasias, desta vez, com ênfase na religião.
Se a história parte duma situação em que aquele primeiro personagem é levado, pela mão do segundo, a envolver-se num esquema de prostituição, aparecendo como um contrariado, mas bem sucedido, gigolo, acaba por tomar um rumo diverso quando ele se apaixona...
Donde hay amor, hay dolor é, justamente, a frase proferida ao acaso, quando o gigolo conhece aquela por quem se apaixonará, e vem, mais tarde, a ser proferida por esta, já não ao acaso... Daí eu tê-la considerado a frase chave do filme.
De resto, trata-se dum filme leve, com uma óptima banda sonora, que convida ao sorriso e se deixa ver com uma certa ternura. E, mais do que, em certa medida, viver do Woody Allen, pode considerar-se uma homenagem a este magnífico actor e realizador, tanto o personagem que representa apenas parece fazer sentido em função dele. E tem o maravilhoso cenário de New York. 
Enfim, não é um filme espantoso, mas é de ver.
 
 
 
 
 
  

terça-feira, 10 de junho de 2014

A TRISTE MORTE DO SR. MELGA

 
Insistes, mas tenho a certeza de que não foi assim, como dizes. Ele não estava cansado da vida, de forma nenhuma, andava até muito entusiasmado, aliás, andava não é o termo, voava, voava até muito entusiasmado, assim é que está certo. Não insistas, não tens razão, não é verdade que se tenha atirado da janela, num desespero súbito ou programado. Ok., aí concedo, não há desesperos programados, quando muito fingimentos, e também não há desesperos súbitos, quando muito, manifestações súbitas de desesperos acumulados, mas isso não interessa ao caso, pois estava calor, como ele gostava, o sol brilhava, como ele gostava, e havia árvores e flores por perto, como ele gostava. E, caso se tivesse atirado da janela, tinha aterrado de cabeça e não de costas. Dizes-me que não, que não gostava de calor, de sol, de árvores nem de flores? Então gostava de quê, de escuridão, de mofo, de cimento armado? Ai era isso, gostava de se fechar em casa e que ninguém o chateasse e estava farto de estar fechado em casa e de ninguém o chatear? Não, não podemos estar a falar do mesmo!
Talvez seja isso, eu falo do Sr. Fernandes, do 7º esq.º, e não tenho a menor dúvida de que se atirou e, na verdade, aterrou de cabeça, por isso aquela azáfama das démarches para o reconhecimento, ninguém de família ou amigos por perto - não tinha -, e aquela papa espalhada no passeio, pronta a ser pisada por um cão ou um humano distraído, não fosse a eficácia do SRM.
O que é isso, o SRM?
Ai não sabes, pensei que sabias tudo, é o Serviço de Recolha de Mortos. E agora, estás convencido?
Estou, tens razão, eu estava a pensar noutro caso, aterrou de costas, não se partiu nem se derreteu, porque era demasiado leve, ainda tentou dar a volta, mas em vão. Deve ter sofrido uma eternidade de horrores, assim, de costas, a ver o mundo ao contrário, apardalado, sem a noção exacta do que lhe estava a acontecer, e com uma enorme sensação de impotência. Deve ser tramado. Meteu-me imensa impressão quando lhe vi as patas hirtas, denunciadoras dos últimos momentos fatais. Pobrezinho!
As patas? Mas estás a falar de quê? Tens a certeza que estás a atinar bem?
E porque não havia de estar? Estou a falar do Sr. Melga, ali do alto.
Ok., como queiras...
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O DESENHO CRU CONTINUA!


O evento Desenho Cru continua a marcar presença, na primeira segunda-feira de cada mês, agora no espaço Art Estúdio - v. post de 6 de Maio p.p. - e sempre com a eficaz organização da Sara Fonseca Ferreira.
 
Desta última vez, no passado dia 2, tivemos a oportunidade de desenhar as bem coreografadas poses da Bárbara Lobato e da Irene, de que também captei algumas imagens fotográficas, que passo a reproduzir, juntamente com alguns dos desenhos que fiz.