quarta-feira, 29 de junho de 2011

A FELICIDADE DUMA KAISER

A Sr.ª Merkel manifestou-se, hoje, muito feliz - MUITO FELIZ, repito - com a aprovação do novo plano de austeridade grego! Tanta felicidade, explicou, deve-se ao facto de entender que o dito plano vai ser muito bom para as finanças gregas e para a zona euro.

Ela lá saberá porquê, porque é que o ESTRANGULAMENTO ECONÓMICO E SOCIAL DE UM POVO pode ser bom para alguma coisa ou para alguém, sobretudo, para o Povo atingido. Excluídos S. Exs.ª os mercados e os beneficiários da venda a retalho e ao desbarato do património grego, of course. Esta parte eu consigo entender.

Ora, quanto mais não fosse por uma questão de RESPEITO pelo Povo grego, que, tão desesperada e agonicamente, se debate com a dramática situação do país, a dita Sr.ª deveria abster-se de manifestar felicidade. E, não sendo por respeito, haveria de ser por VERGONHA.

No caso, a expressão deste sentimento demonstra a mais absoluta falta de empatia e o mais elevado grau de inépcia emocional que alguma vez se viu.

Pior, consubstancia a mais cristalina demonstração dos (des)valores que estes líderes mundiais prosseguem, a saber, a absoluta e descarada primazia dos altos interesses económicos de meia dúzia de pessoas sobre os (para eles, irrelevantes) interesses atinentes à vida e à dignidade de milhões de outras pessoas, reduzidas à condição de verdadeiros escravos.

A NEGAÇÃO, PURA E DURA, DE QUALQUER RESQUÍCIO DE HUMANISMO, PORTANTO!

Nada a que, noutra variante, não se tivesse assistido no estado da sr.ª Merkel, há apenas uns sessesta e tal anos.

Aliás e de um modo geral, entendo que essa sr.ª deveria, pura e simplesmente, PARAR DE EXPENDER COMENTÁRIOS, de resto, quase sempre acompanhados de arrogantes juízos de valor, sobre o caso grego e, já agora, sobre o caso português, como tem vindo a fazer.

Não porque não tenha o direito de se pronunciar sobre esses casos, mas porque NÃO TEM O DIREITO DE SE PRONUNCIAR NOS TERMOS EM QUE O FAZ, ou seja, como detentora duma qualquer autoridade sobre estes Países, hipoteticamente legitimadora duma descarada ingerência nas suas vidas, quer dizer, NAS NOSSAS VIDAS.  

Quer ela queira quer não, quer ela saiba quer não, trata-se de PAÍSES INDEPENDENTES.

E se não sabe, alguém deveria fazê-la saber: AS AUTORIDADES DOS PAÍSES EM CAUSA, ATRAVÉS DOS CANAIS DIPLOMÁTICOS COMPETENTES!

Estas autoridades têm, igualmente, a obrigação de por em prática, ou apoiar os interessados a por em prática, mecanismos de RESPONSABILIZAÇÃO, EM SEDE PRÓPRIA, dos responsáveis ALEMÃES pelos ELEVADÍSSIMOS PREJUÍZOS CAUSADOS A AGENTES ECONÓMICOS NACIONAIS E À ECONOMIA NACIONAL, originados na falsa imputação da origem da bactéria causadora de algumas mortes.

Um Governo que CUMPRISSE ESTES DOIS DEVERES DE ESTADO mereceria, certamente, o meu apoio.

Uma Comunicação Social que abrisses espaço de questionamento a estes aspectos, em vez de se limitar a dar tempo de antena à sr.ª Merkel, mereceria, certamente, o meu apreço.

A sr.ª Merkel irá, certamente, manifestar a sua felicidade pelo (1º) plano de austeridade apresentado pelo nosso governo e pelo tempo de antena acrítico que a nossa comunicação social lhe atribui.



  

AMORES DE VERÃO

Aproximei-me devagar, cautelosamente
Lambeste-me os pés, a medo
A medo, eu, entenda-se
Não fosses estar frio ou, mesmo, muito frio
Mas não, continuaste a lamber-me os pés, as pernas, por aí acima
Até nos confundirmos num delicioso mergulho
Que estavas tudo menos frio
E eu já ia quente
Quando ao teu encontro
Desceste por mim até aos pés
Novamente os pés
Afastei-me
Satisfeita, disposta a repousar
Vieste tú, o outro
Acariciaste-me as pernas, os braços, até a barriga,
Pela primeira vez em muitos anos, esta, a barriga
Depois, as pernas, os braços, as costas,
Estas, pela primeira vez em muitos anos
Senti-te com prazer
Olhei-Vos, a ambos, deleitada
Passei a tarde nisto
Entre um e o outro
Olhando-Vos, desfrutando-Vos
Contente e agradecida
Não sei como conseguiria viver sem Vocês,
Não sei, mesmo, se conseguiria viver sem Vocês
Meus desejados
Mar, Sol!


sábado, 25 de junho de 2011

"SENSIBILIDADE E BOM SENSO"

Ontem, Palácio da Pena, Sintra.

Comento para a Inês, que o Rei D. Carlos, penúltimo rei a habitar o palácio e penúltimo rei de Portugal, tinha sido assassinado.

Antes de ter tempo para  prosseguir com a explicação, logo a pergunta salta, curiosa e sobressaltada, porquê?

- Porque havia uns senhores que não queriam mais reis em Portugal, pretendendo substituir a monarquia pela república, regime em que, em vez de um rei, existe um presidente da república, respondi.

- E era preciso matá-lo, não bastava dizerem-lhe, vai-te embora?!

Assim me respondeu a Inês, com uma sombra de alarme nos seus imensos olhos negros, habitualmente tão dispostos ao riso e à despreocupação.

Do alto da inocência e clarividência dos seus 8 anos!

A visita continuou pelos jardins, onde foi possível apanhar flores vistosas, borboletas estacionadas e gatos passeantes, para enorme júbilo da Inês e do João (4 anos). E meu!












quarta-feira, 22 de junho de 2011

CÃO MEDROSO

Ia eu, por aí, muito descansada, quando um poderoso cão começou a correr e a ladrar, agressivamente, na minha direcção. Maldito!, pensei, o que quererás de mim, o que cheirarás de mim? E encarei-o. Firmemente. Então, ele, como se tivesse percebido algo obscuro na minha introspectiva interjeição interrogativa, estacou, calou-se, passou para o modo rosnar e foi recuando, não fosse eu começar a ladrar-lhe. Continuei a fixá-lo com determinação e ele encolheu o rabo entre as pernas, baixou os olhos e fugiu às arrecuas. Enfim, tinha-o dominado pelo medo. Tinha dominado o meu medo. Lixe-se o cão, pensei. E ele já ia longe, não fosse eu dar-lhe uma dentada.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

FERNANDO, QUÊ?

Como ninguém respondeu ao seu patético apelo, dêem-me um tiro na cabeça, ele próprio se encarregou de ir dando vários tiros no pé, salpicando, pelo caminho, o convidante. Nada que cause surpresa, apenas mais um reality show de 5ª categoria.

Depois, continuando no drama, ameaça que se manterá como deputado, enquanto entender que isso tem utilidade para o País.

Ora, eu, certamente na minha acentuada estreiteza mental e limitada visão política, sempre pensei que as coisas funcionavam, exactamente, ao contrário, ou seja, que o juízo sobre essa utilidade era pressuposto da apresentação da candidatura e que a subsequente eleição impunha o compromisso de assumir o cargo, AO SERVIÇO DO PAÍS, OBVIAMENTE.

Mas se o Sr. não está seguro de respeitar tal compromisso, quem sou eu para dizer o contrário!

Logo eu, que sempre achei espúrio e oportunista o surgimento de um tal personagem no nosso, já desgraçado, panorama político.

Por mim, os Drs. Fernandos Nobres da casa, quanto mais longe, melhor!


terça-feira, 14 de junho de 2011

COINCIDÊNCIAS

Um raio de uma noite má.
A coluna vertebral, talvez zangada com o mundo ou com o corpo que sustenta, não a deixou pregar olho, expandindo-se, numa dor fina, aguda e persistente, pela perna abaixo, sem dar hipóteses de reparação ou repouso, por falta de posição analgésica. 
Acrescia a antipatia do estômago, teimando em lhe travar o meio da garganta com uma náusea absurda, também sinal duma qualquer zanga, vinda já de há dias.

Uma manhã determinada, a seguinte, sábado passado.
Encheu-se de brio e de desejo de vingança, meteu-se no carro e rumou ao hospital. Afinal, não havia de ser a ossatura e uma vil entranha que lhe estragariam os próximos dias.

Um hospital (particular), quase às moscas.
Pudera, fim-de-semana prolongado, quatro dias, fora as férias juntas, o povo no Algarve a devorar hotéis de 5 stars a preços da uva mijona, que la crise oblige, e a matar-se ou estropiar-se pelas viagens de destino.
Coisa boa, portanto: atendimento quase imediato, médica simpática e decidida, nada de exames, só uma breve converseta, que os antecedentes também ajudam e a medicina vai-se tornando cada vez mais galénica - como lhe dizia, há dias, a fisiatra, escapulindo-se á prescrição de uma RM, que isto das verbas anda muito por baixo, grande novidade!
Seguiu-se um shot, aliás, muito bem combinado, como, mais tarde, viria a revelar-se, dado o triunfo do dia seguinte sobre a revolta da dupla atacante, dores para que vos quero, náusea arrumada a um canto (tudo, se não definitivamente resolvido, pelo menos, agradavelmente, adiado para pior oportunidade).
Só que o dito shot, muito bem arquitectado, era de configuração plural, congregando uma injecção intramuscular, uma endovenosa e uma espécie de um soro que escorria dum balão, garbosamente alcandorado no alto de um cabide, para dentro do buraquito expressamente aberto na mão, para, agradecidamente, o receber. 
Demorando esta descida cerca de meia hora de imobilidade, lá a confinaram a uma sala de apoio, confortavelmente instalada num cadeirão azul.

Uma invasão incómoda. 
Estava ela naquilo, esperançada em almejar o sossego merecido e em  pirar-se dali o quanto antes, eis que dois funcionários introduzem na sala uma maca de cujos imaculados (e mono gramados lençóis), emergia uma pálida, frágil e idosa cabeça, aureolada de desalinhados farrapos brancos.
-As melhoras, minha Senhora, e lá deixaram a paciente
Aliás, tudo menos paciente. Num fraco vozear que mais parecia uma reza em surdina, deixando-se  adivinhar soterrada em profundo e angustiado sofrimento, a Senhora murmurava, tenho tantas dores, tantas dorzinhas, ajudem-me, não aguento mais, tenham pena de mim.
Pelo meio daquela espécie de lenga-lenga, que assim parecia, invocava um nome, chamando-o de filhinha, e dirigindo-lhe a sua súplica atormentada.
A outra, entre o arrepio de sensibilidade que a caracteriza e o desejo de fugir dali a sete pés, tal a convicção da sua impotência, tentou acalmar a sofredora, anunciando-lhe, embora sem qualquer certeza, que em breve alguém viria socorrê-la; só que, atada ao cadeirão azul pela irredutível mangueira do soro, não pôde aproximar-se o desejável, vendo-se forçada a repetir três vezes a sua mensagem de pretensa esperança, mesmo assim, sem a confirmação de a ter feito chegar à destinatária. 
Foi, então, que entrou a invocada filha, mulher de meia idade, olhar ferido mas arrefecido, qualquer coisa entre  realista resignação, infinita tristeza, desesperança muda, enfim, aquele não-sei-quê que nos ataca perante os sórdidos e inelutáveis ataques com que a vida nos vai atingindo e para os quais não dispomos de uma adequada reserva de defesa. 
Ao desesperado queixume da mãe respondia duma maneira racional, que tinha de esperar, que não era a única doente, enfim, do jeito com que costuma responder-se às crianças que teimam em não compreender ou aceitar a realidade (ou o sofrimento que ela, por vezes, conleva). Todavia, à (aparente) frieza (ou neutralidade) das respostas, associava um meigo deslizar das mãos pela face da progenitora e pelos brancos farrapos de cabelo que a aureolavam. O que parece ter produzido um efeito calmante, pois, mudando, subitamente, de registo, a senhora começou a murmurar, filha, filhinha, leva-me a passear, leva-me a dar uma voltinha. Parecendo entrar num jogo de crianças, a filha respondeu, queres que te leve aonde, ao castelo, queres ir ver o castelo? O desânimo voltou a imperar, pois a resposta seguiu-se, num ténue murmúrio, o que iria eu fazer ao castelo?

Uma despedida constrangida.
O soro cumpriu o seu percurso, a outra levantou-se, desejou as melhoras (que melhoras!?) e saiu. A filha agradeceu e, um pouco atrasada e atabalhoadamente, um pequeno passo fora do seu casulo, retribuiu.

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Fui pagar a factura da urgência, dirigi-me ao carro, conduzi com a cabeça envolta na nuvem anestesiante do shot, na convicção de que, em futuras circunstâncias semelhantes, deveria optar por um táxi, regressei a casa, onde a empregada me aguardava, entre esfregonas e panos do pó, numa eufórica e desnorteada necessidade de desabafar das traições dum marido em fim de prazo, ouvi-a enquanto pude, pedi-lhe desculpa por a minha cabeça estar demasiado vaga e com necessidade de recosto, deitei-me e regressei, ao fim de umas três horitas, já quase restabelecida, para dar a atenção devida às mágoas da atraiçoada.

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Uma curiosidade.
Já pela noite dentro, lendo a revista Sábado, tomei conhecimento do falecimento de Jack KevorKian, aquele médico americano, alcunhado de Dr. Morte, porque, convicta e assumidamente - e transcrevo - ajudou 130 pessoas a morrer entre 1990 e 1998, a troco de nada, no quadro de suicídios medicamente assistidos
Eu, a quem o suicídio assistido e, mesmo, a eutanásia, desde que, obviamente, rodeados de todas as óbvias (e serão muitas e muito sérias) cautelas, me parece uma opção justa, não pude deixar de rememorar o sofrimento que testemunhara, horas antes, na ida ao hospital.
Não por esse particular sofrimento, afinal, que fiquei eu a saber dele e da solução que a doente pretendia para si ou das suas condições prévias ou presentes para pretender?
Mas pela antevisão de outros sofrimentos que qualquer um de nós pode vir a padecer e a desejar resolver com o livre arbítrio de que, eventualmente, somos dotados.
De resto, como diria o Dr. Morte - e continuo a citar - Se ajudamos as pessoas a vir ao mundo, porque é que não as ajudamos a sair dele?
Pode parecer uma frase banal, mas, se pensarmos bem, não deixa de ter um significado mais profundo: porquê defender a legitimidade para impor (uma vida, sabe-se lá se desejada) e a não legitimidade para permitir (uma morte, assegurdamente desejada?), digo eu, num plano de discussão do fundamento, sem pretender iludir o melindre da questão ...  

Coincidência, ter comprado a Sábado! E não só ...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

SEI QUE ESTÁS AÍ


Fico à espreita,


do lado de cá, bué da curioso


e eis que apareces - como eu sempre soube -, do lado de lá


Valeu a pena ter-te assim tão perto!

HANDS, SWEET HANDS

Ele há mãos que se deixam espelhar em misteriosos aquários, à procura de enormes olhos verdes,


Mãos que, no dizer dos seus pequenos donos, constroem vulcões, amalgamando apetecíveis pedrinhas


Mãos que voam de um qualquer caixote, em indefinidos movimentos baléticos,


Mãos criativas e conquistadoras, como as maravilhosas crianças a que pertencem!


domingo, 5 de junho de 2011

A CADA POVO O SEU SALAZAR

grau de alívio pela saída do sr. Sócrates tem exactamente a mesma medida do grau de apreensão pela entrada do seu sucessor, sr. Passos Coelho, em anunciado consórcio com o sr. Portas.

Se aquele, intitulando-se socialista, levou a cabo a mais direitista das políticas alguma vez ousadas em Portugal, após o 25 de Abril, com expoente máximo em sucessivos atentados ao estado social, aos direitos dos trabalhadores e à própria CRP, castigando os mais fracos e protegendo os mais fortes, não é difícil antecipar o que a dupla que se segue irá por em prática.

Aliás, honra lhe seja feita, o futuro primeiro-ministro, no seu insípido discurso de vitória, devidamente embalado no hino nacional, fez questão de alertar os portugueses para as duras medidas que aí vêm, as impostas pela Troika e outras (que não especificou).

Assim e duma assentada, deixou duas mensagens, mais ou menos subliminares: primeira, isto vai doer mais do que pensam, mas a culpa não é minha (afinal a situação é herdada e ele chega, agora, como salvador da Pátria); segunda, depois não venham dizer que não avisei e chamar-me mentiroso (ele não é como o outro, não pretende impingir-nos uma miríade de fantasias).

Também do mesmo jeito, en passantacentuou a responsabilidade do PS, enquanto agente da negociação com a troika, no tocante à implementação das medidas constantes do memorando daí decorrente. Esqueceu-se, obviamente, de acentuar que subscreveu o dito memorando  e que apresentou um programa totalmente consonante com o mesmo.

Tudo visto, criou uma razoável zona de conforto, a partir da qual nos pode (e vai) f. à vontadinha.

E, por mais espantoso que isto possa parecer a qualquer observador minimamente inteligente, informado, sensato e precavido, conseguiu essa proeza com uma confortável maioria de votos dos heróis do mar, nobre povo, nação valente!

Cá para mim, trata-se antes dos cobardes (cá) da terra, pobre povo, nação assustada.

Mas como é deles o voto, dos que formam as maiorias (e os outros que se aguentem), só me resta mandar os mais sinceros e eloquentes parabéns à sr.ª Merkel!

Ainda uma coisinha: cada vez me convenço mais de que não foi por acaso - terá, até, sido bem merecido -, que este pobre povo sofreu o seu Salazar!