quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PELO MÉDIO ORIENTE - I - WHY DUBAI?




A dada altura, começou a apetecer-me conhecer o Dubai, um dos Emirados Árabes Unidos (UAE, da denominação inglesa). O objectivo, confesso, era bastante reduzido, para não dizer fútil: apreciar a skyline e subir ao topo do Burj Khalifa (torre do Califa, alegadamente o edifício mais alto do mundo), para divisar a paisagem de transformação duma natureza árida, porventura hostil, numa espécie de reino da fantasia, por obra e graça do poder do petróleo. E a (muito) mais não aspirava. Surpreendida comigo mesma? Não! Já lá vai o tempo... Tamanhas são as surpresas da vida que, a dado momento, a indulgência (incluída a auto-indulgência) torna-se um hábito. Felizmente!

Eis-me, então, a caminho do Dubai e, já agora e por arrasto, do Abu Dhabi, outro dos UAE, do Bahrain e do Qatar (apenas porque faziam parte do pacote da viagem comprada, na modalidade de cruzeiro - não que aprecie cruzeiros, mera opção de ordem prática, sempre se evita andar a desfazer e fazer a mala de terra em terra, de hotel em hotel, a um fatigante ritmo diário).

A diferença horária (em relação a Lisboa) é de mais quatro horas, e a viagem de avião dura cerca de sete (a de regresso, mais uma), pelo que, tendo partido de Lisboa por volta das 14H, desembarquei no Dubai aí pela 01,30H (do dia 30 de Dezembro passado). 

À chegada, o primeiro impacto derivou da (grande) dimensão, modernidade e beleza arquitectónica do aeroporto.

Seguiu-se a agilidade do tempo e das formalidades de desembarque e de recolha da bagagem (diferentemente do que certas informações, inclusive da própria agência de viagens, faziam esperar).


Depois, notou-se a parca simpatia do (bonito) funcionário do controlo de passaportes, no seu porte altivo, qual faraó do deserto. Vim a notar esta atitude em mais alguma ocasião, por exemplo no guia local duma das visitas no Abu Dhabi, cujo porte recendia a algo semelhante a um orgulho nacionalista, um desprezo pelos turistas, ambos ou outra coisa qualquer. Curiosamente, nunca encontrei semelhante comportamento noutros países de herança ou tradição árabe ou muçulmana, como, por exemplo, Marrocos, Tunísia ou a Turquia.

Devo acrescentar mais uma primeira impressão positiva e outra negativa, respectivamente: a temperatura amena (embora tendo escolhido esta época por saber tratar-se da menos quente, receava um calor excessivo para a minha sensibilidade, já tão exaurida pelo nosso infernal verão passado); a descoordenação, incompetência, birra ou seja lá o que for do operador turístico local, que, contrariamente ao contratualmente previsto, não assegurou o transfer para o hotel onde deveríamos passar essa primeira noite (ou o que dela restava). Valeu a iniciativa do nosso guia que, vendo, casualmente, passar uma carrinha do hotel, conseguiu fazer parar o motorista e convencê-lo a transportar-nos. Enfim, uma falha lastimável para um país supostamente tão empenhado no turismo, enquanto fonte de receita  (entre outras) alternativa à do petróleo em vias de extinção. 

Uma primeira e não prevista digressão pela cidade, a caminho do porto de embarque - alegada gentileza do guia local, um egípcio extrovertido (pelas razões que se conhecem, os guias turísticos egípcios são forçados a procurar trabalho noutros países), a título de compensação pela falência do transfer da véspera -, permitiu um primeiro contacto com a cidade, donde sobressaiu:

- obviamente omnipresente, a imagem de marca da religião oficial (o islamismo)





- o empenho na implantação de zonas verdes






- a selectividade de certas zonas residenciais, como é o caso do complexo de apartamentos de luxo situados na  marina


- a generosa dimensão das vias de trânsito (chegam a desdobrar-se em oito faixas) e o elevado nível da frota automóvel circulante, onde predominam veículos de proveniência asiática, maxime, Toyota, Nissan e Lexus, muitos deles em modelos tipo jipe, deserto oblige. Não que se deva esquecer um ou outro Ferrari, Lamborghini ou por aí...





- o recato da extensa zona residencial ocupada pela família reinante (os Maktoum, sendo Mohammed bin Rashid Al Maktoum vice presidente e primeiro-ministro dos UAE), a resguardo de muros claros (curiosamente não muito elevados), interrompidos, a espaços, por elegantes portões, que se abrem a largas alamedas, supostamente conducentes a palácios das mil e uma noites (divagação minha ou talvez não), vedados a olhares curiosos de pobres mortais. Vigora a proibição de fotografar, embora não se entenda muito bem a razão, pois nada está à vista, a não ser um desconhecido (embora não difícil de imaginar) mundo de sumptuosidade, engendrada em berço de ouro negro. Este complexo palaciano estende-se ao longo da costa, tendo o mar arábico ou pérsico ao fundo. A marginal prossegue, a descoberto, com um passeio marítimo, praias, hotéis, etc. E estamos em Jumeirah 







- passámos, ainda, por outras zonas residenciais mais ou menos luxuosas. O mesmo não se diga em relação aos locais de habitação dos operários, construtores dos monumentais edifícios, ou doutros trabalhadores menores.  Não por falta de interesse da minha parte em conhecer essa outra faceta daquela fulgurante realidade e não por não ter (talvez provocatoriamente e em vão, confesso) indagado sobre a mesma...

Em geral, a habitação é bastante dispendiosa, pelo que, ao menos entre os expatriados, é comum partilharem casa e, inclusivamente, quarto (aluguer de camas!). 

Note-se que o nível de vida dos naturais do Dubai - que constituem uma minoria (cerca de 20%) da população total, de proveniências as mais diversas, desde, v.g., a Índia, o Paquistão e a China, a diversos países da África e da Europa - é bastante confortável, dispondo, nomeadamente, de educação e cuidados de saúde gratuitos e não pagando impostos (todavia, no corrente ano, foi introduzida uma taxa de IVA, de 5%, restrita a determinados bens e serviços).

A língua oficial é o árabe, praticando-se, como segunda língua, o inglês (o que bem se compreende, dada a assinalada diversidade de proveniência dos habitantes).

- o conhecido arrojo e modernidade da arquitectura, com destaque para certos edifícios, desde o (já tradicional) Burj Al Arab até à mais recente moldura (assim designada pelo formato), passando pela Torre Cayan (e aí vai outro alegado recorde, a mais alta torre espiral do mundo), e por muitos outros arranha-céus futuristas. Não é de esquecer a construção imobiliária em curso, tanto mais quanto representa um relevante segmento da economia actual (a par com o turismo, o comércio e os serviços financeiros; as receitas do petróleo têm um peso comparativo muito inferior).


(2 imagens do Burj Al Arab)

(a moldura)

(a torre Cayan, ampliada nas 2 fotos seguintes)






(e ainda 2 novas perspectivas da torre torcida)







(a marina)


(copiando o Chrysler building de Nova Iorque?)



(pormenor...)

(o canal aquático, em 2 imagens)

(a construção imobiliária, também nas 3 fotos seguintes)





Com este inesperado passeio, acabámos por fazer o check-in no navio - MSC SPLENDIDA, e não, não gostei do serviço -, por volta das 16H. Às 23H zarpámos com destino ao Abu Dhabi, onde chegámos na madrugada seguinte. 




(3 imagens do skyline nocturno do Dubai, desde o porto Rashid)


Por esse outro Emirado viajarei em próximo post. Como, aliás, ainda tenciono voltar ao Dubai num outro post, para assinalar o último dia deste périplo médio-oriental, com destaque para a subida à Burj khalifa (ou não tivesse sido este capricho o leitmotiv da viagem!).


(dizem que -ainda- é a mais alta do mundo...)


Nota: a (má) qualidade das fotografias deve-se ao facto de, em geral, terem sido obtidas a partir dum veículo em movimento.






quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

AS PIRACANTAS


duas fileiras de piracantas, desenhadas em forma de muro rectangular, ladeavam o caminho conducente do portão grande à parte de trás da casa. o portão - à semelhança do outro, o pequeno, que levava às escadas pelas quais se acedia à porta principal - era de ferro verde escuro, trabalhado em arabescos graciosos. o pai não nos deixava trepar pelos portões, para não esfolarmos a tinta, tão orgulhosa, no seu tom aristocrático. portanto, não escalávamos os portões. mas isto é apenas um aparte. hoje, só estou aqui por causa das piracantas. 



se, por acaso, não sabem, as piracantas eram, aliás, são uns arbustos pintados de verde intenso (como quase todos os arbustos) e ornamentados com umas bolinhas oscilando entre cor de laranja e vermelho, após a rebentação duma floração alva. não me recordo se as bolinhas se apagavam com o correr das estações (sim, por essa altura, o tempo dum ano dividia-se em quatro estações bem marcadas). sei que estavam lá, para deleite da vista e provocação das infâncias curiosas, pois constituíam um apelo à experimentação. refiro-me a que não resistíamos a mordê-las, como se fossem frutos de mesa e não meros seres decorativos, desafiando a crença de serem venenosas. demonstrámos que não o eram. sobrevivemos à degustação sem sombra de envenenamento ou simples dor de barriga.

os seus galhos eram, aliás é bem provável que continuem a ser, bastante espinhosos. posso afirmá-lo com a pele das pernas. um dia, andando de bicicleta em seu redor, arranjei maneira de cair. derramei-me literalmente sobre as benditas piracantas. talvez irritadas com a intrusão, quem sabe se exercendo vingança por lhes andar a roubar os coloridos adereços, receberam-me com os espinhos em riste. vi-me forçada a recolher a casa e pedir ajuda (coisa que já então detestava fazer), tal o desgraçado estado em que as pernas me ficaram. mas não, não resultou daí qualquer espécie de desamor.

para mim, as piracantas eram um dado adquirido, tão natural e permanente como as paredes da casa ou a paisagem da serra imperiosa ao fundo. quer isto dizer que, para mim, as piracantas eram eternas.

depois cresci, mudei de cidade, estive vários anos sem as ver e sem pensar nelas, até porque sabia que estavam lá, como a casa estava lá e a serra e a sucessão das estações do ano e tudo o mais... estava lá

e quando regressei - já não para ficar, mas só para passar férias - lá as encontrei! no seu exacto lugar, nas suas preciosas cores, no posto que lhes assinalara no calendário da eternidade. e assim, a cada novo regresso de férias. até que...

...até que certa vez já não estavam lá!


os pais, vá-se lá saber porquê - creio que devido ao cansaço inerente aos cuidados requeridos pela manutenção e alinhamento das piracantas -, tinham mandado cortá-las (substituindo-as por duas longas fileiras de radiantes hortênsias).


(Imagem obtida em pesquisa no Google)

barafustei, chocada por aquela desistência. posso mesmo dizer que a vivi como se uma traição. não sem razão. afinal, com o abate das piracantas caiu-me por terra a crença numa certa forma de eternidade, a do aconchego da infância.